Desde o dia 19 de agosto, parte da fronteira da Venezuela com a Colômbia está fechada. A decisão unilateral foi tomada por Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, tendo como estopim o ataque de supostos paramilitares colombianos a militares venezuelanos que empreendiam uma missão anticontrabando no município fronteiriço de San Antonio del Táchira.

Na região em questão, além do grande número de colombianos que diariamente cruzam a fronteira ou vivem em território venezuelano de modo ilegal, há também o fluxo de mercadorias da Venezuela para a Colômbia. Isso ocorre pelo alto subsídio promovido pelo governo venezuelano, fazendo com que seja muito mais lucrativo comprar os produtos por um preço bastante inferior na Venezuela a fim de vendê-los mais caros na Colômbia.

Publicidade
Publicidade

Esse contrabando seria, de acordo com Caracas, a principal razão da grave crise de abastecimento que assola a Venezuela.

Vulneráveis

A situação se agravou ainda mais com a declaração de Estado de Exceção em 10 municípios do Estado de Táchira e a deportação de mais de mil colombianos que viviam na região de forma ilegal. Segundo dados da ONU, até o momento mais 15 mil colombianos retornaram da Venezuela. Desses, pouco mais de mil foram deportados pelo governo de Caracas e os demais fugiram com medo de represálias.

Atualmente, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores da Venezuela, existem cerca de 4 milhões de colombianos legais no país. Muitos deles chegaram como refugiados da atuação de grupos paramilitares na Colômbia, movimento que teve inicio nos anos 1960 e se intensificou nos anos 2000.

Publicidade

“Ocorre que o processo de legalização dos imigrantes na Venezuela é moroso, o que dificulta o acesso dessas pessoas a trabalhos formais, saúde e educação. São, portanto, pessoas vulneráveis ao comércio informal e ilegal, como o contrabando, a atividades ilícitas, como o tráfico de drogas, e se tornam mais vulneráveis à exploração sexual, bem como a violência e abusos de policiais”, afirma Marília Carolina B. de Souza, doutoranda pelo San Tiago Dantas, pesquisadora do IEEI-UNESP e NUPRI-USP e professora de Relações Internacionais da Universidade Anhembi Morumbi e FECAP-SP.

Liderança pacífica

Apenas na última sexta-feira (04) o Brasil resolveu atuar diretamente, enviando o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para auxiliar no diálogo entre os dois países. Para a professora Marília Carolina B. de Souza, esta seria “uma oportunidade de, por meio da UNASUL (União de Nações Sul-Americanas), projetar sua liderança pacífica na região, intermediando este conflito de forma que ele seja resolvido sem uso da força e sem escaladas de tensão na região.

Publicidade

Trata-se, nesse sentido, de uma oportunidade para o país”.

Além disso, há o interesse brasileiro em defender suas próprias fronteiras, sobretudo a tríplice amazônica, que faz divisa com Colômbia e Venezuela, a qual, segundo Marília, “nunca esteve tão vulnerável às atividades de grupos guerrilheiros, narcotraficantes e contrabandistas”. Para ela, como forma de coibir essa atuação, “o governo, por meio de ações já existentes, como a Operação Ágata, precisa reforçar seus contingentes”. E conclui: “Contra tais ameaças é necessário agir de forma cooperada e coordenada com os Estados vizinhos, senão as ações perdem por completo sua efetividade”. #Mercosul