Sexta-feira, 13 de novembro de 2015. O terror surpreende Paris no meio da noite, ceifando 144 pessoas, ferindo 77 e marcando para sempre inúmeras outras. O #Terrorismo saiu das sombras mais uma vez para ameaçar o Ocidente, com uma força e audácia que não se viam desde os atentados de 11 de setembro nos EUA. E com o terror, ressurge também seu efeito colateral mais nefasto, a xenofobia.

Analistas políticos já preveem uma onda de preconceito global. Mas, afinal, devemos temer os muçulmanos? O Islã é mesmo “a #Religião da paz”, como passou a apregoar desde 2001? Será que os grupos radicais são minoria, gente que faz uma interpretação equivocada do Alcorão?

A dissidente muçulmana Ayaan Hirsi Ali, surpreendentemente, acha que não.

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Para ela, a violência está na essência dessa fé. Ela acredita que a religião sob a qual foi criada desde seu nascimento, na Somália, tem em sua própria raiz o fanatismo e a crueldade, com costumes do século VII e que, portanto, não teriam mais lugar no século XXI.

O islamismo, de acordo com Ali, que teve recentemente seu livro “Herege – Por que o Islã Precisa de uma Reforma Imediata” lançado no Brasil pela Companhia das Letras, acredita que a religião precisa mudar para ser compatível com os valores da atualidade: a democracia e os direitos humanos. E traça um paralelo com o cristianismo, que, ao longo dos séculos, passou por críticas e reformas  até chegar à forma atual.

Questionamentos

Não é à toa que Ali é polêmica, considerada uma “herege”, ou seja, alguém que vai contra doutrinas religiosas.

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Para começar, ela questiona se o Alcorão, o livro sagrado do Islã, realmente expressa a palavra de Deus. E mais: seria Maomé de fato infalível como creem os muçulmanos?

Ali também considera equivocada a prioridade da outra vida sobre a vida terrena. Será que os terroristas dariam a sua vida por uma ideologia se tivessem mais apreço pelo “aqui e agora”?

Até a própria Sharia, o sistema legal que preside toda vida material e espiritual das comunidades muçulmanas, é questionada.

E mais dois pontos interessantes para entendermos o que ocorreu em Paris: um deles é a obrigação que qualquer muçulmano tem de exigir que seja feito o “certo” e impedir o que é “errado”. Obviamente que daí a sair explodindo tudo, vai uma larga distância. Mas não para alguns.

O outro ponto que Ali questiona é a própria Jihad ou “guerra santa”. De acordo com o Alcorão, esse é um dever dos muçulmanos, de manter a religião e enfrentar os inimigos do Islã, o que inclui a luta armada.  

A revolução não está sendo televisionada

E quando a reforma de que fala a escritora começará? Para Ali, ela já está em curso, sendo conduzida por intelectuais, clérigos, professores, políticos e jornalistas, em países de maioria muçulmana e outros.

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Aferir as dimensões desse movimento é, porém, difícil, pois a própria natureza do Islã (código que regulamenta todas as instâncias da vida) parece tolher qualquer tipo de manifestação dissidente.

Contudo, Ali acredita que a reforma terá o apoio silencioso de muçulmanos e muçulmanas que partilham do desejo de se afastar de comportamentos medievais: apedrejar adúlteras, decapitar os ímpios e outros, como o direito de matar mulheres estupradas por "desonrarem" a família. O envolvimento feminino é crucial, se considerarmos que, perante a lei, o testemunho de uma muçulmana vale só metade do de um homem.

A eficácia da quebra desses costumes ainda tem muito que avançar. A Arábia Saudita segue firme em seu tradicionalismo e na maioria dos países muçulmanos, o movimento parece silencioso até demais. Um exemplo notavelmente diferente seria a Tunísia, que separou religião e estado.

Se a reforma vai “pegar” ou não, o tempo dirá. Ali continua seu trabalho corajoso, apesar de ameaças de morte. Hoje, ela mora nos EUA, onde fala em instituições como a prestigiada Universidade de Harvard, porém protegida por seguranças.