A Índia foi o último país sul-asiático a reconhecer o terceiro gênero, em decisão proferida pela Suprema Corte em abril de 2014.

Apesar de vistas como uma "curiosidade" hindu, as hijras podem tanto seguir o hinduísmo quanto o islamismo e, segundo dizem, já foram reconhecidas até na Espanha à época da expansão do Império Otomano. De fato, a presença das hijras na história do subcontinente indiano remontam ao milenar Kama Sutra, em que diversos papéis não-tradicionais de gênero são mostrados, tanto a nível existencial quanto espiritual. 

No Sul da Ásia, há comunidades formadas apenas por hijras, guiadas por uma guru - normalmente, uma hijra mais velha e experiente.

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A maior parte das hijras são designadas com o gênero masculino ao nascer, mas uma pequena parte delas apresenta condição intersexual. Não existe uma identidade correspondente em nossa cultura ocidental, mas, até certo ponto, pode-se dizer que elas são análogas aos "eunucos" - contudo, vale lembrar que referir-se às hijras como eunucos é uma atitude obsoleta e desrespeitosa. Apesar de pessoas transgênero se identificarem como khwaaja sira, são também protegidas pela lei como pertencentes a um terceiro gênero. 

A ligação das hijras com eunucos vem de um dos mitos hindus da deusa Bahuchara Mata, considerada a padroeira da comunidade hijra na Índia. Esse mito narra que um rei que não teve filhos decidiu orar a Bahuchara para que ela lhe concedesse uma criança. A deusa atendeu ao pedido do rei, mas o filho, príncipe Jetho, era impotente.

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Bahuchara então apareceu para Jetho em um sonho e ordenou que ele cortasse seus genitais, passasse a usar roupas femininas e se tornasse seu servo. Desde então, a deusa tem identificado homens impotentes e ordenado o mesmo. Caso se recusem a obedecer, a deusa os amaldiçoa para que nasçam como homens impotentes pelas próximas 7 reencarnações. 

Normalmente garotos que fogem de casa ou sofrem rejeição da família são adotados pelas hijras e passam por uma cirurgia de "castração" por volta do período da adolescência - a operação não envolve a redesignação genital, apenas a retirada do órgão sexual. Em alguns lugares o procedimento ainda é realizado por sacerdotisas em um ritual, mas já é possível optar pela cirurgia feita por médicos (ainda que as condições das clínicas não sejam as ideais, os riscos são reduzidos).

A história das hijras é rica e bastante diversa, variando de acordo com a região e com os cultos religiosos locais, mas seu poder espiritual é um ponto em comum nas narrativas.

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Contudo, elas são vítimas de discriminação e vivem à margem da sociedade, posição que se agravou com o imperialismo que colocou a Índia sob a dominação britânica, levando à difusão de valores ocidentais no país asiático.

Sem oportunidades para ingressar no mercado de trabalho formal, a maioria das hijras ganha a vida por meio de extorsão (a ideia de ser amaldiçoado por uma hijra provoca grande temor entre as pessoas), pedindo dinheiro nas ruas, apresentando-se em cerimônias de celebração de nascimento ou casamento, ou ainda se prostituindo. Ademais, enfrentam constante violência, além da falta de acesso a serviços públicos como saúde e educação. #Curiosidades #LGBT