A boneca vestida com macacão laranja representa o treino perfeito para os jovens recrutados pelo #Estado Islâmico - poucos pela própria vontade - praticarem a decapitação. A inserção à violência tem início, meio e fim: a boneca é apenas a metade de um processo que começa com o aprendizado em vídeos de decapitações reais, passa pelo testemunho in loco dessa prática e vai terminar com as próprias crianças de faca em punhos cortando os pescoços dos "infiéis".

Decapitar virou marca registrada do grupo jihadista, que veste suas vítimas com o habitual traje antes de executar a crueldade. Ayad Ajaj, líder da ONG Mitram, mais uma dentre tantas organizações que tenta, de alguma forma, arrefecer as barbáries, revela que teve contato com 16 crianças yazidis que escaparam dos campos de treinamento do EI.

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Além da exibição dos vídeos e do treino em bonecos, alguns jovens revelaram que foram forçados a assistirem decapitações ao vivo.

O modus operandi do Estado Islâmico com relação às crianças não se restringe às técnicas de decapitações. Vídeos já circularam na internet e indicaram como o grupo trabalha para que esses jovens se tornem os "mascotes do Califado". Em sua maioria, as crianças são filhas de combatentes mortos, simpatizantes iraquianos ou sírios locais, além de jovens yazidis sequestrados pelos jihadistas.

Ameaças

Desde cedo, as crianças são impostas a uma realidade que não deveriam pertencer a elas - nem a ninguém, por óbvio. Adel Jalal, de 13 anos, permaneceu por cerca de 9 meses sob domínio dos jihadistas assim como o seu irmão Asse, 11. As lembranças são as piores possíveis.

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Adel lembra que os combatentes mais velhos ameaçavam matá-los e recorda disparos quando algum jovem cometia erro.

"Eram retirados do lugar dependendo do erro. E aí ouvíamos tiros. Ficávamos com muito medo. Não mais os víamos depois disso", revela Adel.

Para o exército adulto do EI, responsável por treinar e controlar os mais jovens, não decorar o Corão era insulto à fé e aos princípios do grupo. Por isso, a criança que não conseguia citar algum trecho do livro sagrado não só era ameaçada, como sofria. "Em caso de erro, nos batiam com cabos", conta Ahmed Amin, 15 anos.

Bomba

O menino chorava de forma silenciosa quando dois policiais se aproximaram. Do lado de fora de uma mesquita em Kirkuk, no Iraque, o jovem de 15 anos foi flagrado pelos agentes de segurança da cidade utilizando um cinto de explosivos prestes a serem detonados. Em tempo, os policiais evitaram uma tragédia maior, que tem se repetido em tantas outras mesquitas com o uso de "homens-bomba" de menos de 15 anos de idade.

Como se fosse matemática ou português, o ensino do uso da bomba é prioridade para os "professores" do EI, ávidos em ver seus alunos prontos para explodirem quem quer seja.

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Todas as crianças são instruídas sobre como vestir o cinto de explosivos e posteriormente detoná-lo. E se o jovem não quiser fazer isso? Adel conta que não há essa opção.

"Aí pode ser que eles nos matem e peguem outro menino".

O aumento do uso de crianças em suas ações, no entanto, coincide com uma evidente queda do número de combatentes do EI. Fontes americanas acreditam que o grupo perdeu 45 mil homens em dois anos e agora agem com cerca de 15 mil. Ao mesmo tempo, Mossul e Raqqa, cidades centrais do poder dos jihadistas no Iraque, já estão em processo de libertação pelos iraquianos. Sarhad Qadir, chefe da polícia em Kirkuk, só não é mais direto que otimista: "O Ei sabe que vai perder". #Terrorismo