Após a eleição presidencial americana e seus desdobramentos, #Cientistas estão se dedicando de uma maneira nunca antes vista para tentar explicar e remediar um fenômeno que, na verdade, sempre esteve por aí: o espalhamento de #Notícias falsas – ou fake news, em inglês.

A discussão foi um dos destaques no último congresso da AAAS (Associação Americana para o Progresso da Ciência), realizado em fevereiro na cidade de Boston.

Dominique Brossard, pesquisadora da Universidade de Wisconsin, foi uma das que palestraram sobre o tema. Para ela, um dos problemas é que, de tanta repetição incorreta, a expressão "fake news" acabou perdendo o significado original, ou seja, o de notícias construídas para enganar o público e que, ao mesmo tempo, atendem a algum interesse escuso – político ou monetário, por exemplo.

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Na prática, o jargão vem sendo utilizado pelo presidente republicano Donald Trump e também por parte da população para agredir jornalistas e veículos de comunicação com os quais discordam. Segundo Julie Coiro, da Universidade de Rhode Island, essas pessoas se "esquecem" que é possível haver múltiplas versões para uma mesma história.

A pesquisadora explica que a capacidade de realizar um raciocínio conciliatório entre versões e pontos de vista, ou seja, de fazer uma síntese, é adquirida ainda durante a adolescência.

Pesquisas com alunos do equivalente ao ensino médio em países como Israel, Finlândia e EUA mostraram que até metade dos alunos dessa faixa etária ainda tendem a assumir pontos de vista "absolutistas", ou seja, aderir a uma versão para uma história e tratar tudo o que não seja equivalente como mentiroso.

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Adolescentes mais novos, relata Julie, tendem a acreditar em quase tudo que leem. Quando são apresentados a versões conflitantes, tendem a ter dificuldade em conciliá-las. "Eles querem que um adulto ou alguém de confiança diga em que eles devem acreditar."

O trabalho a ser feito, diz, é aprofundar os ensinamentos de análise de texto. Por exemplo: identificar sua origem, reconhecer argumentos razoáveis, saber quem são os autores e mapear interesses e pontos de vistas ali implícitos ou explícitos.

Dado o sucesso das notícias falsas, tudo indica que muitos adultos ou não foram bons alunos ou, por uma razão qualquer, essas competências acabam se escondendo quando surge uma notícia especialmente interessante.

O fenômeno psicológico por trás da urgência em compartilhar o conteúdo nas redes sociais ainda está longe de ser completamente compreendido, diz o professor Dan Kahan, da Faculdade de Direito de Yale.

Para ele, o impacto das notícias falsas pode ser ínfimo ou imenso dependendo de sua repercussão – quanto mais naturais elas soam e se propagam, maior o potencial de destrutivo.

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Um exemplo de dano das informações falsas para a imagem da ciência é aquele causado por um artigo científico fraudulento (já retratado) que associou a aplicação de vacinas para sarampo, caxumba e rubéola ao aparecimento do autismo em crianças pequenas.

Outro assunto científico que volta e meia se torna o centro das atenções são as mudanças climáticas. O embate entre cientistas, ativistas e setores que representam agronegócio e grandes petroleiras nublam o panorama para quem está de fora e impedem uma melhor definição da realidade por fatos e medições.

Segundo Dominique, o melhor a se fazer na "crise da informação" é usar os conhecimentos de ciências sociais para decifrar como massas reagem às notícias. Uma coisa que ela diz que não funciona – e seus colegas concordam – é os cientistas adotarem uma postura autoritária.

Também não vale a pena o esforço para categorizar as notícias entre "reais" e "falsas", afirma. Para Julie, a chave é ensinar as pessoas a serem mais críticas, especialmente na internet.

Até agora, porém, ninguém encontrou solução para o principal problema: as pessoas se sentem representadas pelo que compartilham nas redes, independentemente de ser verdade ou mentira.

"Só os fatos não bastam. Temos que achar outro jeito de lidar com isso", diz Dominique.