A vida do australiano Anthony Foster chegou ao fim em maio deste ano, mas boa parte dela foi dedicada a uma briga gigantesca contra a #Igreja católica, em defesa das vítimas de abusos sexuais, cometidos por padres. Apesar de todo o sofrimento pessoal e da tragédia familiar, sua vida não foi em vão e motivou grupos de ativistas de vítimas de abuso sexual infantil a lutar por seus direitos e por justiça. Além de um funeral de Estado, Foster recebeu diversas homenagens de australianos e pessoas no mundo todo. Ele morreu aos 64 anos em Melbourne, na Austrália, em decorrência de um acidente vascular cerebral.

Sua história e sua luta contra a igreja começaram no final dos anos 80.

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Ele vivia feliz, ao lado da esposa Chrissie Foster e das filhas Emma e Katie. As duas, ainda crianças na época, foram abusadas sexualmente pelo padre Kevin O'Donnell, que morreu em 1997, após ficar dois anos preso, acusado de cometer atos sexuais contra menores. Em 1958, ele já havia sido acusado de #Pedofilia.

As filhas de Foster foram estupradas pelo sacerdote católico, entre os anos de 1988 e 1993. Na época em que começaram os abusos, elas tinham entre cinco e seis anos de idade e isso criou traumas profundos na família Foster. O pai não se conformava com a situação, pois todos os acontecimentos causaram um prejuízo emocional irreversível para as crianças, que se tornaram adolescentes e, posteriormente, adultas perturbadas e deprimidas.

Emma, por exemplo, começou a se auto-mutilar após tornar-se viciada em drogas.

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Ela tinha 26 anos quando, no ano de 2008, ingeriu uma dose excessiva de medicamentos e foi encontrada morta, abraçada a seu ursinho de pelúcia, um presente que ganhou em seu aniversário de um ano. A irmã Katie sofre de alcoolismo e, após ter sido atropelada em 1999, passou a depender de cuidados especiais constantes, pois adquiriu deficiências físicas e mentais.

Por longos anos, o casal Foster lutou para que a igreja católica reconhecesse os crimes praticados pelo padre contra suas filhas. Além do reconhecimento pelas atrocidades, também buscavam respostas por parte da instituição religiosa. Eles até denunciaram o padre, mas afirmaram que a igreja sempre ignorou a situação.

Após 10 anos de batalha na justiça, conseguiram uma vitória parcial. Chegaram a receber US$ 555 mil, em um acordo judicial. O pai nunca se conformou com a posição de indiferença da igreja, em relação aos estupros cometidos pelo padre contra suas filhas. Ele disse, durante uma entrevista a uma emissora de TV, em 2010, que a igreja católica deveria ter vergonha porque, se tivesse dado abertura para ouvir e discutir sobre os abusos, talvez a filha Emma ainda estivesse viva.

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O australiano não buscou solução apenas para a dor da família. Ao lado da mulher, ele também buscava justiça para famílias de outras vítimas de abusos sexuais de padres católicos. Entre as ações efetivas, eles ministravam cursos voltados para pais e futuros pais, sobre uma comunicação assertiva com os filhos. O trabalho do casal ajudou significativamente na criação de uma comissão real, considerada a maior instância de inquérito público da Austrália, que investiga casos de abusos sexuais institucionalizados no país.

A comissão foi formada em 2013 e, no final deste ano, deverá entregar um relatório final, após ouvir depoimentos assustadores e constatar que 7% dos padres #católicos australianos cometeram abusos sexuais contra crianças, entre os anos de 1950 e 2010.

Um ano antes de sua morte, Anthony Foster viajou junto com a esposa para Roma, na Itália, para ouvir o depoimento do cardeal George Pell, tesoureiro do Vaticano e o nome mais importante da igreja católica na Austrália. Ele era o bispo auxiliar na região, quando a filha Emma foi matriculada na escola e teria sido alertado sobre o padre que a estuprou.

A trajetória da família na luta contra os abusos de padres católicos e por justiça para as filhas está retratada no livro Hell on the Way to Heaven (Inferno a Caminho do Paraíso).