No dia 5 de junho, as agências de notícias do mundo inteiro informavam que diversos países árabes e de maioria muçulmana haviam cortado relações diplomáticas com o #Catar. Até o momento, esses países são os seguintes: #Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Iêmen, Bahrein, Mauritânia, Comores, Maldivas e o Governo de Acordo Nacional na Líbia.

Outros três países reduziram relações diplomáticas com a nação em questão, sendo eles: Jordânia, Senegal e Burundi. Além do rompimento das relações diplomática, Bahrein, Arábia Saudita, Egito e os Emirados Árabes Unidos fecharam seu espaço aéreo para aeronaves registradas no Catar e interromperam os acordos comerciais.

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A justificativa destes países para o isolamento diplomático e econômico é a de que o Catar estaria envolvido com o financiamento e apoio à organizações consideradas terroristas. Mas, seria este o único motivo para esta crise diplomática? O que mais está por trás do óbvio?

Contexto regional

Durante as últimas décadas, temos visto o fortalecimento da Arábia Saudita como potência regional e sua emergência como país líder no mundo árabe. A crise do projeto nasserista nos anos 70 e a cisão no movimento Baath culminando em polos rivais no Iraque e na Síria resultaram em um vácuo na posição geopolítica dos países árabes. A expansão econômica e militar da Arábia Saudita desde o final dos anos 1980 permitiram a ela ocupar este vácuo trazendo consigo um projeto para exportar uma ideologia conservadora dentro do islamismo.

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Por este fator, a Arábia Saudita buscou aumentar sua influência, não apenas nos países árabes, como também em países de maioria muçulmana.

Entre os principais aliados regionais da Arábia Saudita, estão os demais países membros do Conselho de Cooperação do Golfo, que são Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Omã, Kuwait e Catar. Todos esses países são monarquias e possuem um alinhamento ideológico com Riad.

Entretanto, um grande empecilho para o projeto geopolítico saudita é o Irã. Desde a morte do Aiatolá Khomeini em 1989, o poder político no país persa vem se alternando entre as mãos de políticos conservadores e moderados. Isto significa que o país tem conseguido em alguns momentos fortalecer parecerias internacionais como com a Rússia e a China. Isto também significa que em outros momentos, o país vem ampliando seu poder militar e avançando no desenvolvimento de seu programa nuclear.

Recentemente, sob o governo do moderado Hassan Rouhani, o Irã alcançou um ponto extremamente importante em sua relação com o Ocidente, que foi o acordo sobre seu programa nuclear.

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Sob este acordo, o país iria restringir seu programa nuclear e o Ocidente eliminaria algumas das diversas sanções econômicas impostas ao país persa. Essa aproximação com o Ocidente, entretanto, é um grande problema para as ambições políticas da Arábia Saudita. Se os países ocidentais abandonarem sua campanha de demonização do Irã e revogarem as sanções que tanto afetam a sua economia, o adversário de Riad poderá ameaçar a hegemonia saudita na região.

O Catar, apesar de inserido dentro da esfera de influência saudita, tem conseguido pautar uma política externa bastante independente. Suas grandes reservas de recursos energéticos, ausência de tensões sectárias internas e liderança centralizada são alguns dos principais fatores que permitem a Doha manter uma política externa dotada de maior independência, evidenciada por suas boas relações com o Irã, seu próprio sistema de difusão de informação na forma da rede de noticias Al Jazeera (a mais importante rede de televisão do mundo árabe) e seu apoio a grupos extremistas que não possuem a "benção" de Riad. Esta política externa é muito mal vista pelos sauditas e seus aliados .

A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA representa um retorno da política de contenção iraniana. Suas declarações agressivas em relação a Teerã podem resultar até mesmo em um fim do acordo nuclear assinado durante o governo Obama. A recente visita do novo presidente estadunidense a Arábia Saudita e o acordo militar assinado entre os dois países no valor de US$ 110 bilhões reforça a posição de apoio dos EUA à hegemonia saudita na região.

Como foi exposto anteriormente, as relações entre o Catar e Arábia Saudita e seus aliados frequentemente atingem pontos de tensão. Em maio de 2017, a imprensa estatal do Catar publicou comentários do Emir Tamim bin Hamad Al Thani tecendo elogios à Irmandade Muçulmana, Hamas e ao Irã. Pouco tempo depois, a imprensa estatal desmentiu essa notícia e afirmou ter sido obra de hackers.

Sendo verdade ou não, este fato provocou uma enorme tensão entre Doha e seus vizinhos no Golfo. Outro incidente ocorrido logo em seguida foi a publicação pela rede Al Jazeera de documentos que mostravam conexões entre autoridades dos Emirados Árabes Unidos a um think thank pró-Israel. A reação imediata dos demais países do Golfo liderados pela Arábia Saudita foi a proibição da Al Jazeera em seus territórios e a intenção de reduzir relações diplomáticas. Essa ação logo foi seguida por aliados dentro e fora do mundo árabe.

Sendo assim, a justificativa usada por estes países de que o rompimento das reações diplomáticas se deu devido ao apoio fornecido pelo Catar a grupos terroristas parece agora um argumento extremamente raso. Países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos possuem um longo histórico de financiamento de grupos extremistas islâmicos. A Jordânia e as autoridades líbias apoiadas pelos sauditas também apoiam de forma política e material grupos ligados à militantes islâmicos na Síria.

Estratégia arriscada

Tendo em vista todo o balanço geopolítico da região, pode-se dizer que esta atitude de romper relações com o Catar é uma tentativa dos sauditas e seus aliados de tentar trazer Doha de volta para a esfera de influência de Riad. Entretanto, essa manobra é extremamente arriscada. O Catar não possui uma economia diversificada e necessita de seus vizinhos para importação de diversos produtos. Por exemplo, o Catar importa 40% de seus alimentos da Arábia Saudita e, desta forma, esta interrupção das atividades comerciais entre esses países pode causar uma crise humanitária.

Porém, o aprofundamento desta crise poderia fazer com que o Catar busque o auxílio de outras potências. O país possui boas relações com o Irã e a Rússia e este bloqueio imposto pelos países do Golfo pode aproximar Doha de Teerã e Moscou.

A Arábia Saudita não pode permitir que um país em sua fronteira caia sob a zona de influência Iraniana. Outro fator importante é a localização de uma base militar estadunidense dentro do Catar. Esta instalação é fundamental para as operações militares norte-americanas no Iraque e na Síria. Sendo assim, qualquer influência russa ou iraniana também seria inaceitável para Washington.

Desta forma, o panorama mais provável para o futuro parece ser uma resolução pacífica da crise, impulsionada pelos EUA e pela Turquia. Entretanto, é um sinal de que a monarquia saudita não está disposta a ver seu projeto geopolítico ameaçado por quem quer que seja. #Oriente Médio