De acordo com o The New York Times, o menino sírio que chamou a atenção do mundo todo no ano passado, e que se tornou o símbolo do sofrimento enfrentado pela população civil da Síria em função da guerra que assola o país desde 2011, reapareceu esta semana em meios de comunicação vinculados ao governo local – só que desta vez, em bom estado de saúde e ao lado de sua família.

Em agosto de 2016, Omran Daqneesh, então com três anos de idade (na época a mídia informou que ele tinha cinco anos), foi filmado sentado em um banco dentro de uma ambulância após sua casa em Aleppo ter sido atingida por um bombardeio cuja autoria até hoje é discutida, com forças pró Bashar al-Assad acusando os rebeldes, e os oposicionistas sírios acusando o governo.

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No vídeo, que foi amplamente divulgado nas mídias sociais, o menino estava coberto de sangue e poeira, aparentemente atônito.

Medo da exposição exagerada e coação

Nesta semana, Omran e sua família apareceram em entrevistas produzidas por canais de TV tanto do próprio país onde vivem quanto de outras nações que adotam uma posição favorável a Assad (Líbano, Irã e Rússia), fato que o The New York Times classificou como uma "aparente campanha de relações públicas calculada pelo governo sírio".

Mohamad Kheir Daqneesh, pai de Omran, declarou para a televisão estatal iraniana (Al-Alam News) que temeu pela segurança de seu filho quando ele se tornou conhecido mundialmente. Daqneesh afirmou que na época da exposição chegou a mudar o nome do menino, além de fazê-lo adotar um corte de cabelo diferente com o intuito de que ninguém o reconhecesse.

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Em outra entrevista, desta vez concedida a um canal sírio, o pai de Omran revelou que na noite do incidente teve que "lutar" para resgatar a esposa e seus filhos – um deles, chamado Ali (10), acabou morrendo – devido à "natureza súbita do ataque". Daqneesh disse que os voluntários locais que atuam em situações de emergência, conhecidos como Capacetes Brancos (chamados assim em função da cor do equipamento de proteção que comumente usam), ajudaram a evacuar sua família da residência atingida. Entretanto, os socorristas teriam levado Omran para a ambulância onde foi filmado contra a vontade do pai do menino, enquanto o homem ainda estava no andar de cima de sua casa.

Daqneesh afirmou ainda que após Omran ter recebido alta do hospital, ativistas da oposição a Assad o pressionaram para que ele fizesse declarações contra o governo, e lhe foram feitas, inclusive, ofertas em dinheiro que foram recusadas. Além disso, homens armados teriam ameaçado sequestrar o menino para usar sua imagem em propagandas a favor dos rebeldes sírios.

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De acordo com o The New York Times, cidadãos da Síria que aparecem em programas de TV controlados ou associados ao governo não podem falar livremente, pois o regime exerce controle severo sobre todas as informações tornadas públicas a respeito da guerra, incluindo entrevistas. Assim, Omran Daqneesh se tornou uma espécie de ícone do conflito no país, e tanto o governo de Bashar al-Assad quanto seus opositores se acusam mutuamente de usar a imagem do menino para promover suas próprias agendas. #Guerra Civil #Conflito na Síria