É comum ouvirmos comentários vindos de pessoas mais velhas sobre como, no passado, não existiam tantos indivíduos transgêneros. Por ser um termo recente, cunhado em 1965 pelo psiquiatra John F. Oliven, de fato, antes dessa época não havia pessoas que se identificassem como transgêneras, mas a verdade é que o trânsito entre os gêneros e variações para além da oposição entre masculino e feminino parece existir há milhares de anos em um grande número de culturas.

Um exemplo que talvez seja mais conhecido é o das pessoas dois-espíritos ("two-spirit"), que podiam ser encontradas em quase todas as tribos nativas da América do Norte integradas à sociedade como detentoras de grande poder espiritual por terem, em si, os espíritos masculino e feminino manifestados em um único corpo.

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Na ilha do Havaí, esses indivíduos são chamados de mahu. Em outras ilhas da Polinésia há também aquelas pessoas que nascem biologicamente "homens", mas que, por imposição da família, assumem o gênero feminino, conhecidas como fa'afafine.

Já entre os muçulmanos existe um hadith (uma lenda sobre o profeta Maomé) em que um mukhannath - palavra do árabe clássico usada para designar "efeminados" e "homens que parecem mulheres" - teria sido protegido de um grupo de pessoas hostis pelo próprio Maomé. Essa lenda é usada, inclusive, para se explicar o motivo de a fé muçulmana repudiar homossexuais, mas aceitar, ainda que de forma muito fechada e com uma série de imposições comportamentais, a transexualidade.

Em alguns países de maioria muçulmana vivem também as hijras, reconhecidas legalmente como terceiro gênero no Paquistão, Nepal, Bangladesh e Índia.

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Embora associadas majoritariamente ao hinduísmo, muitas hijras seguem a fé islâmica e sua presença em países da Ásia data do período do império turco-otomano.

Na Península Balcânica, o código de regras de conduta Kanun estabeleceu, desde o século 15, a possibilidade de mulheres assumirem papel e identidade masculinos para se tornarem herdeiras, sendo conhecidas como "virgens juramentadas". A prática decaiu atualmente, mas ainda ocorre no Norte da Albânia e na Macedônia.

Entre as tribos brasileiras, as çacoaimbeguira eram índias tupinambás que assumiam diversas tarefas tradicionalmente delegada aos homens, bem como um comportamento masculinizado e chegavam a se casar com outras mulheres. Os índios guaicurus, xamicos e kadiwéu, por sua vez, reconheciam os kudínos, índios efeminados que realizavam as atividades próprias das mulheres, inclusive o de enfeitarem artefatos e corpos com os intricados padrões kadiwéu, uma arte dominada apenas por mulheres.

O povo warao, nativo da Venezuela, Suriname e Guiana, reconhece, desde a era pré-colombiana, pessoas que não seriam homens nem mulheres, a quem chamam de tida wena.

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Normalmente, são indivíduos que nascem biologicamente do "sexo masculino", mas que assumem, desde cedo, o papel feminino na comunidade. De maneira semelhante aos warao, ao Sul do México, em Oaxaca, as culturas zapotecas também reconhecem um terceiro gênero, ao qual denominam muxe. Nesse caso, as muxes se apresentam socialmente como do gênero feminino, mas podem exercer funções tidas como masculinas.

Na República Dominicana, crianças designadas como do gênero feminino ao nascer acabam por desenvolver seus órgãos genitais masculinos apenas na adolescência, o que faz com que assumam uma nova identidade de gênero, sendo chamados de guevedoces.

Conhecer essas manifestações múltiplas nos permite vislumbrar a artificialidade dos papéis de gênero e como é possível transitar entre o que foi estabelecido como masculino e feminino - algo que, por si só, pode variar de uma cultura para outra. Se a própria natureza não se prende à lógica binária - vide a frequência com que nascem pessoas que apresentam condições intersexuais -, não há motivos para nos prendermos a uma visão tão fechada e prejudicial à diversidade. #Transgênero #Curiosidades #LGBT