O caso de Patrick Mitchell, um garoto australiano, hoje com 14 anos, que começou a readequar seu corpo para o gênero feminino e relata ter se arrependido dois anos depois, tem sido noticiado com bastante sensacionalismo pelos veículos de comunicação.

O programa 60 Minutes divulgou a propaganda para sua próxima edição, em que apresentará a história de Patrick e uma entrevista com sua mãe, o que despertou a atenção de páginas brasileiras desesperadas por "clicks", as quais prontamente passaram a compartilhar uma chamada em que diziam que o garoto se arrependeu de ter passado pela cirurgia de "mudança de sexo"!

Em apenas 1 minuto de vídeo é possível entender bem que Mitchell não passou pela cirurgia de redesignação genital e, mais ainda, começou a tomar, indevidamente, hormônios que eram receitados para sua mãe, o que fez com que desenvolvesse características físicas femininas nesses 2 anos em que fez uso do estrogênio.

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Contudo, é preciso lembrar que as crianças que se identificam como transgêneras não têm acesso a receitas médicas para hormônios pelo menos até os 16 anos e que, antes dessa idade, tomam bloqueadores de puberdade para que suas características sexuais secundárias não se desenvolvam, a fim de experimentarem a vida no gênero com o qual alegam se identificar e avaliarem se desejam, definitivamente, dar início à readequação de seus corpos.

Cirurgias de redesignação genital apenas podem ser realizadas a partir dos 18 anos de idade, sendo mais comum a recomendação de se esperar até os 21 anos.

É bem provável que a pessoa responsável por redigir a notícia em português não saiba discernir corretamente o que assistiu e ouviu no vídeo do 60 Minutes, em inglês, ou que tenha adicionado uma falsa informação - a de que Mitchell passou por cirurgia - apenas para ser mais divulgada e acessada.

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Um grande problema desse tipo de atitude é que não existe um filtro, na internet, para essas notícias falsas que, por serem alarmantes, espalham-se facilmente. Em se tratando de um assunto ainda tabu como o caso de crianças transgêneras, o compartilhamento de informações mentirosas como essa é um dos principais responsáveis por disseminar o pânico entre a população, já bastante temerosa da própria questão da transgeneridade como um todo - principalmente com a ideia de possibilidade de arrependimento.

Embora existam, sim, casos de arrependimento em múltiplos níveis - algumas pessoas se arrependem da transição em sua totalidade, pelos motivos mais diversos, outras se arrependem unicamente de ter passado pela cirurgia genital, mas não de ter transicionado -, eles representam uma porcentagem pequena do número total de indivíduos que passaram por mudanças corporais para se adequarem à sua identidade de gênero.

Um estudo realizado na Suécia em 2014, avaliando as experiências de pessoas que entraram com pedidos médicos e legais para a readequação do gênero entre os anos de 1960 e 2010, apontou que o índice de arrependimento equivale a 2,2% do total de casos, ou seja, uma quantidade pequena de indivíduos.

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Aliás, é justamente por isso que o caso de Patrick Mitchell chama tanto a atenção, pois, não se depara com exemplos como o dele com muita frequência. Assim, espera-se que a mídia vá explorar a notícia e tirar dela tudo o que puder para prender o público.

Por um lado, trata-se de um ponto acerca da questão trans que precisa ser debatido, como tantos outros, pois muito pouco se fala sobre arrependimentos. Por outro lado, é um problema fazer com que pessoas leigas se alarmem, fomentando a discriminação contra pessoas trans, que já é grande, além de ser um prato cheio para doutrinadores cristãos e conservadores. #Transfobia #Transgênero #LGBT