Aconteceu em 2002 uma rebelião na cadeia de São Lourenço, nesse dia os presos inconformados com as más condições e atendimento da cadeia acabaram colocando fogo em tudo e teve até uso de bombas de fabricação caseira e nesse dia até um preso foi morto carbonizado. Depois desse episódio muitas foram as mudanças e uma delas foi o desativamento da cadeia e a construção do presídio de São Lourenço. No início a maioria da população foi contra, pois todos tinham medo da existência de um presídio justamente no centro da cidade. Portanto a luta foi árdua em todos os sentidos, mas entendemos o medo e a angústia das pessoas, afinal de contas a mídia em geral mostra muito mais as violências que acontecem nos sistemas prisionais do que os trabalhos de ressocialização que são feitos.

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Parece que o mal "vende mais", pelo menos é essa impressão que nos é passada. Em poucos momentos o jornal procura e divulga coisas positivas, mas quando é negativo passa e repassa por vários dias, semanas e em alguns casos até meses. Estamos sempre dizendo que precisamos fazer campanhas sobre a paz, eu acredito que temos que divulgar mais a paz e o positivo e fazer com que as pessoas acostumem com o que é certo. Um exemplo que sempre me choca é quando a mídia passa alguém que encontrou dinheiro e devolveu como se essa pessoa fosse um herói, pois isso deveria ser o banal, o certo, o nosso cotidiano, mas todos se acostumaram tanto com o errado, que quando alguém faz o que é sua obrigação, isso passa a ser um ato modelo. Que mundo é esse que estamos vivendo, onde ser bom e honesto vira notícia incrível e onde o assassinato e os roubos passam a ser visto como comum.

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Voltando ao nosso assunto, prezado leitor, surge o presídio São Lourenço construído com a ajuda dos próprios detentos. E no começo as pessoas não entendiam que os agentes não eram policiais, pois o policial prende e o agente apenas guarda, vigia e acompanha. Até mesmo entre o pessoal que iniciou esse trabalho era confuso entender essa nova função, mas é que na verdade a maioria das pessoas espera pela chamada "justiça" que muitas vezes não acontece. Aqui mesmo durante o tempo trabalhado ouvimos as histórias de tantas pessoas. Alguns casos tão comuns que poderia acontecer com qualquer pessoa, relato de jovens que nem conhecem sua família, de outros que não dão o devido valor ao carinho que os pais têm alguns que não tiveram oportunidades e outros que simplesmente quiseram ganhar dinheiro fácil e se deixaram levar pela ganância se envolvendo com o mundo das drogas. Temos consciência que todos devem ser tratados de maneira igualitária, mas temos também a certeza que em alguns casos podemos alcançar nossos objetivos porque a pessoa quer mudar, mas em outros acabamos por de certa forma a perder tempo.

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O que temos em mente ao executar nosso trabalho é que em tudo que fazemos temos objetivos a alcançar e que trabalhamos bem como se pudéssemos fazer diferença para todos, mesmo isso não acontecendo. Nosso trabalho de ressocialização é bem visto na sociedade porque realmente nos empenhamos da melhor forma e de modo geral estamos alcançando muito de nossas metas. Não temos problemas de comportamento em nossa escola, os reeducandos respeitam os profissionais de educação e acabam mudando seu comportamento até mesmo dentro das celas e durante a movimentação. Pois acreditamos que a educação pode fazer a diferença quando os envolvidos no processo acreditam nisso. E pensando na ressocialização acontece o início da escola no sistema prisional. Inicia-se a construção da escola efetuada pelos próprios detentos do Presídio de São Lourenço. Um trabalho que no início estava regado pelas incertezas e muitas pessoas achavam uma loucura que a educação fizesse parte de um presídio. Mas as poucas pessoas que acreditaram investiram nesse sonho e acabaram levando outras pessoas a sonhar com eles. Aos poucos a construção foi sendo edificada e já se podia sentir um clima diferente no ar. Claro que como em todo lugar desse tipo já se percebe que o desafio é muito grande e que poucas pessoas acreditavam que poderia dar certo. Porém havia um Diretor Geral que com determinação e competência desejava que tudo desse certo e acreditava que a Educação facilitaria a vida tanto dos reeducandos quanto dos próprios agentes que lidam com eles no cotidiano, pois quando se tem educação todos os caminhos parecem ter novos rumos, novas opções e sempre levam a alcançar algum objetivo e ou alguma meta. E assim foi iniciada a educação formal via estado no Presídio. No início era atendido mais ou menos de 45 reeducandos que se encontravam em processo ensino aprendizagem na alfabetização. Foi um convênio firmado entre a prefeitura de São Lourenço e o presídio de São Lourenço. A partir dali todos os detentos que adentrassem o lugar iriam ter a possibilidade de ler e escrever. Nesse projeto AJA os reeducandos eram atendidos independente da escolaridade que possuem, pois existia apenas a alfabetização. E muitos foram os relatos de alegria nessa época, pessoas que antes apenas usava os dedos como assinaturas tiveram a felicidade de saírem escrevendo seus nomes e com um conhecimento básico para entenderem mesmo que precariamente o que estavam assinando, comprando ou negociando. Sei que muito dos leitores vão pensar que essas pessoas não merecem, mas durante minha caminhada pela vida, aprendi que somente Deus conhece e sabe o que vai ao coração e os motivos que levam uma pessoa a praticar um ato. E quem somos nós para dizer quem é digno ou não, pois tem uma passagem da bíblia que sempre guardo em meu coração. Ela diz: "Nem todo aquele que diz Senhor, Senhor, entrará nos reinos dos céus"... Portanto não sabemos quem são os merecedores apenas observando o ser humano e seus atos sem enxergarmos o que está encoberto pela alma e pelo coração. Pensando dessa forma, apenas faço com carinho e dedicação o meu trabalho, uso da competência e sabedoria que Deus me deu. E acredito que Ele não faz nada por acaso e que estamos sempre a serviço de seu chamado, pois como se diz a célebre frase: "Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos". E sempre vivi em função da educação e para mim as pessoas que não sabem ler e escrever é como alguém sedento de água próximo á um poço seco. De que adiantaria Deus nos dar um talento se a gente simplesmente o enterrasse. Tenho consciência que não são todos merecedores das oportunidades, mas não prejudicaria quem é, pelos outros. Portanto esse projeto de Alfabetização de Jovens e Adultos foi o primeiro passo para iniciar a educação dentro do sistema prisional. Mas como alguns possuem pena grande e a maioria que entrava já era alfabetizado, não tinha como atender os outros e a escola acabava por não cumprir seu papel, ou seja, direitos iguais para todos.Então novo convênio foi firmado e a escola passou a ser estadual, atendendo inicialmente ao Ensino Fundamental completo. E depois de dois anos funcionando passou a atender o ensino médio completo. Fato esse que deu oportunidade para que alguns reeducandos completassem seus estudos. A escola fica acima das celas e foi construída e depois ampliada para atender a demanda que ficou maior logo após a escola passar a ser estadual e atender a todos os níveis de escolaridade. Várias pessoas que iniciaram esse sonho já não fazem parte do sistema, mas não deixaram de dar sua contribuição e serão lembrados pelas pessoas que aprenderam e se envolveram com elas durante esse início de caminhada.Os reeducandos dentro de sala participam de todas as atividades e sempre que vamos registrar através de fotos nossos projetos e atividades eles são avisados, pois segundo nosso regimento temos que divulgar e propagar as atividades desenvolvidas, mas para preserva-los avisamos para que se quiserem cubram o rosto, virem de costas ou simplesmente abaixem a cabeça. Alguns nem ligam e dizem que sabem por que estão ali e que as pessoas mais importantes da vida deles que são seus familiares já sabem e o resto do povo não importa o que pensam e nem como pensam e ficam tranquilos quando vamos fazer nossos registros e ainda fazem questão de escrever o nome inteiro quando fazem um trabalho que será exposto.

O diretor geral Carlos Alfredo Sales passou por várias dificuldades até que a escola realmente ficasse legalizada e respondendo às expectativas. Porém nunca desistiu e sempre investiu todos os esforços para que esse sonho fosse realizado e que essa escola se tornasse a melhor e a mais dedicada. Inicialmente muitos profissionais de educação tinham medo de lecionar nesse recinto devido aos procedimentos, a maneira de vestir, às exigências que não são poucas. Mas com o tempo isso também foi acabando e as pessoas começaram entender que a escola era normal, apenas nossos reeducandos eram especiais e tinham direito a educação, mas precisavam de um modo diferente de ser acompanhados. Não tínhamos a ilusão que seria tudo fácil. Sabemos que a sociedade ainda não entende muito bem esse estilo de escola e que muitos acreditam que nossos reeducandos deveriam apenas sofrer, pois de alguma forma fizeram mal ou usurparam algo de alguém na sociedade. Porém nossa visão é que não cabe a nós qualquer tipo de julgamento e que somos educadores acima de tudo e por esse motivo, nos envolvemos nesse processo ensino aprendizagem e aos poucos fomos conseguindo autonomia para realizar muitos projetos.Esse é o diretor que resolveu fazer a diferença. Que iniciou esse sonho e que acreditou na educação. No começo tudo surgiu devido a uma vontade política, mas aos poucos Carlos Alfredo Sales resolveu que em sua unidade esse trabalho teria sequência e que seria o melhor possível. Em muitos lugares o projeto foi começado, mas os resultados não foram atraentes. Porém aqui se uniu pessoas que resolveram sonhar juntos. Que acreditavam em seu trabalho e nos resultados que poderiam alcançar. E aos poucos vocês leitores vão conhecendo todo processo. Pois a intenção desse documento é justamente demonstrar que todo começo possui dificuldades e que somente consegue vencer quem não desiste. As exigências educacionais para uma escola prisional são as mesmas para qualquer escola regular de ensino, porém nesse sistema existem muitas limitações, como por exemplo, não podemos ter um caixa escolar, pois não podemos ter representantes de pais e alunos em nosso colegiado. Muitas das coisas que precisamos nos são barradas pela Secretaria da Defesa. Enquanto que em uma escola regular todos os projetos podem ser viáveis, no nosso caso tudo depende de prévia aprovação e sempre que pensamos em algo temos que pensar em procedimentos e materiais que podem ser utilizados e a maneira como os mesmos serão utilizados. E para que tudo isso fosse possível foi necessário uma mudança bem radical no sistema prisional. E novos espaços foram se abrindo. Para que possamos entender um pouco mais das mudanças radicais que foram acontecendo, vamos fazer uma retrospectiva em como era o sistema carcerário na antiguidade para que possam perceber que da forma que era apenas aumentava a ira e a violência em quem era condenado, pois até quem praticava um crime mais simples, quando jogado na cadeia acabava por ficar pior ainda e aprender coisas erradas e maneiras diferentes de como ser ruim. Portanto no início, bem no nosso passado, o esquartejamento era uma prática legitimada e essa modalidade que se dava acompanhada pelo suplício. Era uma grande forma de tortura que tinha como principal intuito a punição, acompanhada pelo sofrimento e pela vergonha e uma forma de marcar que a força era para poucos e que cada um deveria saber o lugar que se ocupa e conseguir repassar para sociedade que esses homens cativos estavam recebendo o castigo tido como merecido. Por isso, a grande revolução ocorrida na justiça penal dessa época se deu principalmente voltada ao desaparecimento deste tipo de punição que era desumano e em nada contribuía para que a pessoa ficasse melhor. Embora o fazer sofrer tenha se mantido de forma mais amena, no fim do século XVIII e começo do XIX a punição como espetáculo foi acabando. E surge então outra forma de execução pública que piora a violência, enquanto a certeza da punição passava a ser a única arma para desviar o homem do crime, não sendo mais o espetáculo da morte. Mas a forma de castigo tinha o objetivo maior de acreditar que tudo isso conseguiria diminuir ou parar a criminalidade, mas todos nós sabemos que não é assim que as coisas acontecem verdadeiramente. Desse momento em diante a pena passa a ser mais burocrática e surge o discurso de que a justiça tem o dever de corrigir e reeducar, sendo mais neutra. Os castigos são mais mascarados e a morte passa a ser mais rápida. Porém mesmo que velado continua a existência de castigos pesados e de muita maldade camuflada. Com o surgimento do protestantismo aparece a ideologia de que o apego ao trabalho é a melhor das virtudes e a preguiça o pior dos vícios. Assim, as penas corporais deram lugar aos trabalhos forçados em minas e galés. E nesse período de mudança os apenados passaram a trabalhar, porém ainda de forma desumana, sem tempo e lugares acertados e muitos ficavam doentes e acamados devido aos esforços contínuos e aos maus tratos. Porém tais modalidades de pena não se destinavam à profissionalização e reintegração dos indivíduos, mas sim a tornar os apenados obedientes, ajustando-os ao aparelho de produção. Com isso os prisioneiros eram colocados nos trabalhos mais penosos e insalubres.E ainda assim continuavam a ficar cada vez mais violentos e em nada servia esse trabalho como uma correção educativa.Neste novo contexto, a justiça penal passa a se caracterizar pela punição da alma, afligindo o intelecto, à vontade e a disposição dos apenados. Tal pena passa a ser estabelecida com a ajuda de profissionais como psiquiatras, psicólogos e médicos. O apenado passa então a ser julgado também pelo seu grau de periculosidade. E o crime passa a dizer em qual camada ele deve estar e o que poderá fazer de acordo com o crime que cometeu e o grau de maldade. Evidencia-se o controle dos indivíduos, a apropriação de seu tempo e a manutenção da disciplina dos mesmos. Não se restringindo apenas ao sistema penitenciário, influencia instituições como escolas, quartéis, hospitais e empresas. Já o sistema capitalista passa a se apropriar do corpo das pessoas, disciplinando-as através da vigilância constante e do castigo. Tal capitalismo se guia por um sistema em que os indivíduos devem se encaixar as regras pré-estabelecidas e que o que é considerado normal deve ser o que se irá seguir. Não podemos esquecer-nos de mencionar que estas regras eram utilizadas tanto em ambientes policiais como fora dele. Por outro lado, essas regras e punições atingiram e atingem toda a população, pois tais regulamentações em busca da homogeneidade procuram medir desvios e desempenhos em todos os âmbitos sociais. E isso não representa uma regra que deveria ser seguida, mas apenas mais um alicerce para conseguir os resultados aparentemente acertados. Mas o que importa é que nessa época os detentos passaram a ser treinados, classificados, e normalizados, podemos dizer que ficavam disciplinados e dominados.Sabe-se que o trabalho é uma das condições primordiais para a reinserção social e o alcance da dignidade e cidadania dos indivíduos. Porém sabemos que na atualidade o trabalho em instituições penais traga benefícios (como a redução de um dia de pena a cada três dias trabalhados, o recebimento de um quarto do salário mínimo pelo trabalho) e ainda são beneficiados as empresas que fazem convênio com as unidades prisionais aproveitando o trabalho dos detentos.Continuando então no que se refere especificamente à cidade de São Lourenço (MG), algumas empresas têm buscado parcerias com o sistema prisional. Cerca de 70% dos presos que estão em regime fechado e semiaberto já desenvolvem algum tipo de trabalho em parceria com a prefeitura com trabalhos diversos na comunidade e uma fábrica de blocos montada no terreno do presídio e ainda algumas pequenas empresas que fizeram parcerias com o presídio para usufruírem de tal benefício.

Devo colocar também que, embora muitas empresas ainda tenham como principal foco o retorno lucrativo, esse tipo de parceria não deixa de ser o início de mudanças no que se refere ao resgate da dignidade dos apenados. E a nosso ver é uma forma de que o mesmo possa descobrir novas alternativas quando o mesmo tiver seu retorno à sociedade permitido. No nosso caso específico os reeducandos do presídio de São Lourenço também fazem trabalhos artesanais que são vendidos em lojas da comunidade e em alguns casos doados para os familiares de modo que os mesmos possam usufruir o que o reeducando criou. Algumas empresas colaboram com o desenvolvimento de muitos projetos aqui implementados. Como exemplos têm a conhecida como Márcia da Retífica que é uma parceira dessa escola desde que a mesma passou a contemplar o ensino médio. Parceiras desse tipo é que fazem possível todo desenvolvimento de nosso trabalho. E o trabalho continua e cada projeto pode-se transformar em um artigo para troca de experiências e para se aproveitar da ociosidade que o ambiente carcerária continua tendo em sua maioria. O preso pode ter uma perspectiva maior e ao mesmo tempo devolver á sociedade algo que se perdeu fazendo serviços comunitários. Sei que esse artigo pode causar polêmicas e muitos ficarem contra, mas eu sempre me fiz uma pergunta simples: E se fosse minha filha? Eu ia querer que ela tivesse uma segunda chance? E a resposta que obtive é a que guia meus passos até hoje. Quanto ao julgamento de certo ou errado, justo ou injusto deixo ao meu Ser Superior, pois somente Ele consegue ler a essência da alma e explicar os motivos pelo qual as coisas acontecem. Espero continuar no próximo artigo explanar melhor sobre isso, mas dependerá muito do interesse que os leitores demonstrarão pelo que leram até aqui.