Segundo o site "Slate", um quadro da artista plástica britânica Leena McCall foi removido da Exposição Anual da Sociedade de Mulheres Artistas da Galeria Mall, de Londres, por expor a genitália feminina de forma "pornográfica". Uma das justificativas foi a de que se deveria proteger "crianças e adultos vulneráveis" que visitam a exposição. E para finalizar a comédia do absurdo, a obra foi substituída por outro quadro de mulher nua, menos "desafiador e peludo".



Hipocrisia. A palavra é derivada do grego "hypokrisía" e tem seu significado como sendo "o hábito que se baseia na demonstração de uma virtude ou de um sentimento inexistente" ou "ação ou efeito de fingir", a "hipocrisia do discurso" (dicionário online de português).



Como a sociedade moderna ainda pode aceitar atitudes hipócritas e completamente dissociadas da realidade? E, pior, como indivíduos ainda se prezam a tal prática, sem considerar a chance de se cair no ridículo perante seus pares?



O corpo humano sempre foi tratado hipocritamente desde o gênesis bíblico: "Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si." e "Ele respondeu: Ouvi tua voz no jardim e, porque estava nu, tive medo, e me escondi." (Gênesis, cap.3, vers.7 e 10).

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O que espanta é que milênios de história não bastaram para desnudar (desculpem-me o trocadilho) a farsa hipócrita de negação da própria criação. Afinal, não nascemos todos nus?



É inegável a beleza estética do corpo humano, seja homem ou mulher. As formas, curvilíneas e moldadas numa geometria física que enaltece a perfeição da criação deveriam ser exaltadas e encaradas como um prêmio justo diante da efemeridade da vida. Como os grandes artistas gregos clássicos, deveríamos cultivar o apreço pelo que somos, com todas as nuances que nos caracterizam, sem que isso possa chocar alguém nos tempos de hoje.



A falácia hipócrita do museu revela, de outro modo, um desrespeito para com a mulher, ao condenar a vagina como sendo algo "nojento" (citação do próprio museu). O mesmo se esquece de que é, através da vagina, que todo e qualquer ser humano vem ao mundo, num ato altruístico da parideira diante da renovação da vida.

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Renegar a vagina é renegar o meio pelo qual o indivíduo escorrega para a luz deste mundo.



Mesmo quando falamos de atitudes e gestos que induzem ao sedutor, ao campo da luxúria e desejo, não devemos jamais escondê-los de quem quer que seja, crianças ou "adultos indefesos". Trata-se de sentimentos genuinamente humanos, praticados dia após dia por todos e devem ser tratados da forma mais natural possível.



Numa obra de arte, é possível dar vazão aos sentimentos reprimidos e expor a alma do artista na tela, de modo que a sociedade possa aprender, vivenciar e compartilhar sua própria natureza, numa troca empírica com a obra, absorvendo as emoções que se propõe o criador da mesma.



Seja numa obra de arte, nas relações políticas e sociais, na convivência dentro do próprio lar, agir hipocritamente nos afasta do caráter libertário de sermos o que somos, de vivenciarmos abertamente nossos desejos e aspirações. Não se trata de promover a anarquia dos sentimentos, nem propor uma babel orgíaca de vida.

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Trata-se de trabalhar a nossa natureza intima do modo como ela é: natural.



Somente assim, poderemos compreender melhor o mundo em que vivemos e, mais ainda, compreender a fundo quem realmente somos. #Entretenimento