Vergonha é a palavra-mestra que define a atuação da mídia brasileira na cobertura da Copa do Mundo 2014 no Brasil. Segundo os "Princípios Internacionais da Ética Profissional no Jornalismo", regidos através de encontros consultivos de diversas organizações internacionais do setor e com referendo da UNESCO, em seu princípio 2º, há a afirmação de que "A tarefa primeira do jornalista é garantir o direito das pessoas à informação verdadeira e autêntica através de uma dedicação honesta para realidade objetiva por meio de que são informados fatos conscienciosamente no contexto formal deles(as) e mostram as conexões essenciais deles(as) e sem causar distorção, com desenvolvimento devido da capacidade criativa do jornalista, de forma que o público é provido com material adequado para facilitar a formação de um quadro preciso e compreensivo do mundo no qual a origem, a natureza e a essência dos acontecimentos, processos e estados dos casos são tão objetivamente quanto possível compreendidos".

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Da mesma forma, Barbosa Lima Sobrinho, pensador pioneiro da comunicação no Brasil, sendo advogado, político, escritor e jornalista em seus 103 anos de vida, dizia que o jornalismo poderia ser comparado ao magistério, onde o jornalista assumiria o papel de professor, educador da sociedade.

O que vimos, ouvimos e lemos durante a cobertura brasileira da Copa do Mundo de Futebol, um dos maiores (senão o maior, juntamente com as Olimpíadas) eventos esportivos do planeta, foi estarrecedor, hilário até, num contraponto premente à informação precisa, baseada em fatos e com dotação de análises e argumentos baseados em números, estatísticas e, precisamente, quanto à realidade dos acontecimentos, de maneira isenta e assertiva.

Foi um verdadeiro show de calouros, num espetáculo grotesco de informação chula, superficial, tramada previamente antes de entrar num ar, no intuito de se criar um "clima" de comoção, de obstinação, de única e derradeira saída, enfim, de salvação e redenção de uma nação através do futebol.

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O Brasil vive uma situação de degradação moral, intelectual e política que beira ao escárnio. Mesmo analfabeta funcional, a população sente na pele as mazelas diárias da falta de compromisso com o público, com o cidadão, quando precisa enfrentar o caos dos congestionamentos nas grandes metrópoles, a inflação "não contabilizada" nos supermercados, a miséria escandalosa no atendimento nos hospitais e postos de saúde, o "ensino" precário e comprometedor recebido por seus filhos e mais um sem número de problemas vivenciados cotidianamente, sem ter a quem recorrer de fato, apesar dos altíssimos impostos pagos e zero de eficiência no trato da coisa pública.

Diante de tal cenário, a mídia adotou a Copa do Mundo como elemento aglutinador de massas e um redentor das mazelas do povo. Ledo e pobre engano. Criou-se uma verdadeira corrida para a compra de bandeirinhas, camisetas da seleção canarinho, fulecos e cornetas que incrementaram a venda dos ambulantes de rua, certamente felizes com a iniciativa.

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Repórteres "criando" situações para simular a "felicidade" plena e geral da nação, com os transeuntes devidamente ensaiados para quando o link da emissora entrasse ao vivo demonstrando a gritaria quase animalesca a qual os mesmos se prestavam, num verdadeiro circo de horrores.

Salvo algumas exceções, como a equipe da ESPN, que procurou sempre uma análise crítica dos fatos, não poupando os erros e desacertos dentro e fora de campo, os meios de comunicação brasileiros deram um show de auditório no ar, numa "torcida" desesperada pela vitória brasileira na conquista da Copa.

A pergunta que fica é: a quem realmente de fato interessa esse tipo de comportamento? Estaria a mídia a serviço do governo e dos oligopólios deste país, numa atitude ufanista que mascare as misérias e mazelas sociais? Fato é que, com o início da Copa, os protestos prometidos a ocorrer em todo o país fracassaram redondamente. O povo se entregou ao convite do "oba-oba", perpetrado pelos veículos de comunicação, como num Carnaval fora de época.

Karl Marx dizia que "a religião é o ópio do povo". Mais tarde, o nosso brasileiríssimo Nelson Rodrigues capturou a frase, adaptando-a para "o futebol é o ópio do povo". Certamente a frase está coberta de razão, quando olhamos para o comportamento em geral do povo brasileiro. Contudo, a frase não explica sobre "quem é o traficante que fornece esse ópio ao povo".

A derrota humilhante e histórica para a Alemanha por 7 a 1 serve de antídoto quanto à ministração desta droga chamada futebol. A realidade volta à tona quando o povo brasileiro descobre que, apesar do futebol, suas contas continuarão vencendo na data estabelecida, o aluguel ou a prestação do imóvel não vão esperar a boa vontade de cada um, os ônibus continuarão sendo carroças-lata-velhas-lotadas, enfim, que a vida continua, quer ganhemos ou perdemos em campo.

Mas a verdadeira vergonha vai ser o encarar do "The Day After" para a imprensa brasileira. O ufanismo desmedido e marqueteiro acabou, com a derrocada do Brasil. E agora, qual será a nova droga a ser administrada para controlar a vontade popular, manipulando suas mentes? Evento de grandeza neste ano só as eleições. Veremos, sem dúvida alguma, mais uma vez, o grande Carnaval da mídia, procurando criar mais um "clima".

Mas eleição pode até dar voto a quem disputa. Mas não faz a cabeça de nenhum brasileiro. #Televisão