Kit Kat. Certamente você já ouviu de alguém essa nomenclatura. Para uns, trata-se de um novo sistema operacional voltado para os smartphones. Para outros, como eu, trata-se de algo mais simplório, gostoso, doce: um wafer de chocolate, criado na Inglaterra em 1935 pela Rowntrees e somente agora popularizada na terra de curupira. Confesso que nunca havia experimentado o referido wafer e estava planejando a hora de comprá-lo como quem planeja visitar o Palácio de Windsor, ou seja, nunca. Mas eis que, no supermercado, encontro o Kit Kat com um preço atrativo: R$ 1,25 cada. Comprei 6 unidades, para dividir com os filhos, claro. Adorei o sabor, muito consistente e cremoso, bem melhor que o tradicional BIS que a gente compra.

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Gostei muito e pensei que, a partir daquele instante, seria um consumidor frequente e voraz do mesmo. 

Hoje, fui abastecer o veículo para mais uma jornada semanal em busca do sustento sofrido. E, claro, havia a loja de conveniência, com aquele tradicional pão de queijo quentinho, saboroso, derretendo na boca gulosa. Mas resisti a tentação, o que importava era o possante com o tanque cheio. Mas eis que olho na bomboniere e o encontro por lá, tentador, com sua embalagem avermelhada denotando desejo, como se disesse: "me coma, sou toda sua". Claro, no gênero feminino, pois nesta questão sou plenamente resolvido, um troglodita heterossexual sobrevivendo num mundo um pouco mais difuso. Decidi. Vou comprar uns 4. Talvez meia dúzia. Pra deixar no porta-luvas do possante, caso for preciso.

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Com os olhos brilhando e a boca molhada de desejo, disponho-os alegremente à frente do caixa para que ele pudesse registrar a compra e passar meu cartão. Estava tudo muito fácil.

"São quarenta reais e cinquenta centavos, senhor" - disse o atendente. "O quê? Como assim? Deve haver algum engano" - respondi, ciente de que o funcionário estabanado houvesse errado na conta. Mas era isso mesmo. Cada unidade do tal Kit Kat custava, na loja de conveniências, incríveis e absurdos R$ 6,75.

Qual a justificativa para uma diferença de R$ 5,50 a unidade entre o supermercado e a loja de conveniências? Frete? O Kit Kat da loja era embalado a ouro? O Kit Kat do supermercado era pirata? Não há justificativa. Apenas uma constatação sincera: ganância. 

Sim, eu e você, caro leitor, moramos num país onde a ganância rege todas as relações políticas, sociais e econômicas vigentes. Aqui, o empresariado quer obter o máximo de lucro com o mínimo de produção. Aqui, o governo cobra seus impostos e taxas multiplicando exponencialmente seus ganhos à custa de raspar o tacho já vazio do contribuinte.

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Todos querem levar vantagem. Consumidor, no Brasil, é sinônimo de otário, de trouxa. Reclamar? Pra quem? O negócio é se conformar e entender que é assim que as coisas funcionam nessa terrinha que foi descoberta para ser eternamente uma colônia de exploração. E basta.

Qual sujeito que se diz "empresário" neste país vai trabalhar com uma taxa de, no máximo, 20% de lucro sobre seu produto ou serviço? Amigo, amiga, você não mora nos States, se liga. Aqui, o lucro presumido e não declarado gira em torno de 100 a 150%, no mínimo. E o pior: você sabe disso.

Enfim, dei um adeus sofrido aos meus Kit Kats, abandonados em pleno altar da compra com um caixa me observando enraivecido, como se eu fosse obrigado a levá-los, a partir do momento em que os coloquei à sua frente. Ao sair da loja de conveniências, uma madame pomposa adentrou, observou os produtos nas prateleiras, pegou dois Kit Kats (junto com outras guloseimas), pôs sua carteira recheada na cara do caixa, pronta para desembolsar o que fosse. Não esperei para ver o valor de sua conta. Afinal, não era de minha conta...  #Negócios