Você já tirou sua "selfie" hoje? Nossa, só de ouvir essa palavra "selfie", já me causa ojeriza. Afinal, estamos no Brasil e a língua falada aqui desde que se prove o contrário é o português. Se estivéssemos em Portugal, nação que se auto-valoriza e não tem complexos de inferioridade como nós, o termo mais sensato a ser usado seria o "auto-retrato" (se não for esse o termo, que um bom português como o meu querido amigo Emídio Tavares, me corrija por favor). Mas não quero divagar hoje sobre essa "americanização" constante de nossa língua, típica de um povo que não possui ou não valoriza a própria identidade. Deixemos isso para outra oportunidade.

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O assunto em voga é o "auto-retrato". Vá lá, "selfie"... No Facebook, proliferam-se como gafanhotos vorazes invadindo plantações. Mais: há relatos cada vez mais contundentes de "selfies" de meninas nuas ou de casais pós-coito. A superexposição causa encantamento principalmente nas fileiras mais novas da sociedade. É bastante comum que pré-adolescentes utilizem desse mecanismo expositivo a todo momento, estejam aonde estiverem (até no banho!). Há uma ânsia insaciável de se mostrar, de chamar atenção, num grito disfarçado de fotografia como se clamassem: "Eu existo e estou aqui!".

Narciso, filho do deus-rio Cephisus e da ninfa Liríope, segundo a lenda, era um jovem de extrema beleza. Tamanha era essa beleza que o pobre homem preferiu viver para adorá-la e amá-la acima de qualquer coisa, morrendo por ela.

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Não estamos dizendo, sobremaneira, que os jovens e marmanjões que tiram as ditas "selfies" são narcisistas doentes, não. Narciso se auto-amava e o que vemos nas "selfies" não é amor-próprio. É, assustadoramente, ausência dele.

Se olharmos para o panorama global, a sociedade brasileira padece, há muito tempo, de falta de autoestima. Procura sofregamente elementos que a façam ressurgir, seja através do futebol, da música ou de alguma campanha publicitária mentirosa e manipuladora que nos indique ser uma nação vencedora. No fundo, sabemos que somos uma nação fracassada em seus princípios de igualdade, de oportunidade e de formação de seus cidadãos. Agimos muito mais como náufragos cambaleantes de um navio que, há muito tempo, encalhou no mar de desatinos e gatunagens que o cercam desde seu descobrimento.

O problema é que, com o tempo, o sentimento coletivo transborda para o sentimento individual. A miséria social é visível, o empobrecimento das relações interpessoais, a alienação (quase abdução) do intelecto e a massificação de uma cultura que deixou de ser genuína há muito tempo para hoje tornar-se mero objeto kitsch, faz de cada um de nós meras marionetes de modismos e falsos conceitos que nos aprisionam em nossa própria ignorância.

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E o ato de se tirar um "selfie" é exemplificador. É como se pudesse gritar por socorro, clamando por alguma atenção de uma sociedade cada vez mais distante, individualista e ausente de si mesma.

Qual interesse desperta para o outro o fato de se postar algo como "estou comendo agora", seguido de uma "selfie" mostrando você com seu prato de comida? Essa carência afetiva torna cada um de nós marionetes de um sistema super-expositivo e supérfluo, como se todos quisessem se comunicar no vácuo, um bando de zumbis que, no máximo, conseguem grunhir alguma coisa que ninguém na verdade deseja saber o que é de fato.

A superexposição, além dos perigos naturais que traz consigo, como roubo de dados e informações virtuais, até sequestros e roubos reais, carrega o mais presente fracasso pessoal. É como uma embalagem sem conteúdo, onde o rótulo pode ser atrativo e nada mais além disso. Numa "selfie", pode-se desnudar o corpo. Jamais desnuda-se a alma. #Moda #Entretenimento