A maldição hereditária.

Ainda que haja respeito ao luto, a fomentação política se iniciou no primeiro boletim lançado pela imprensa, apenas na possibilidade, antes de se ter certeza da morte de Eduardo Campos a pergunta era inevitável: e agora, como fica o quadro político?

Igualmente foi minha primeira dúvida depois de assimilar os noticiários. Tenho apreço pelos sentimentos, não forjo afeto, meu medo estava em Marina Silva, um temor quase infantil pela possibilidade de vê-la eleita nas asas da emoção coletiva; pavor com o avanço dos partidos políticos religiosos; pânico pelo desejo de hegemonia nos discursos pentecostais e neopentecostais: tenho medo da Marina Silva como teria do Aiatolá Khomeini.

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Em nome de Jesus ou não, foram veiculadas informações no ano passado sobre mais de vinte integrantes da bancada evangélica que respondiam no STF a acusações de corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e estelionato, ou seja, "verdadeiramente, a opressão faz endoidecer até o sábio, e o suborno corrompe o coração", Eclesiastes, 7:7 (risos).

Nos últimos anos fomos obrigados a acompanhar Marco Feliciano, Silas Malafaia e outros de vertentes evangélicas que brotam como fungos a sacolejar a bíblia para conseguir holofotes: moral e bons costumes (deles), família (não a minha), ojeriza a homossexuais, discussões acerca do sexo dos anjos, inquisição para acusadas de feitiçaria.

Ora, os problemas do Brasil são reais, supersticiosos no poder só atrapalham. Não se trata de respeito às religiões como direito à utopia e esperança, trata-se de glossolalia, de megalomania, de despersonalização, de poderes paranormais como se estivéssemos elegendo personagens da DC Comics: "só orando" é possível ter acesso à segurança e à saúde, disse Edir Macedo.

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"Analistas" não podem comparar lideres religiosos da Alemanha, Suécia e Holanda sem apontar o número de pessoas "sem religião" nestes países - mais de 70% em determinadas regiões - seria como procurar a carteira onde não a perdeu. Além de tradição, leis cumpridas e boa educação, lá igrejas também se transformam em boates ou bibliotecas, isto é, acesso à segurança e à saúde (e IDH dos maiores do mundo) sem orar.

A constituição é clara, " é inviolável a liberdade de consciência e de crença", também clara quanto às obrigações do Estado, "a educação, direito de todos e dever do Estado", prova completa de que neste território a "orientação religiosa" se sobrepõe a educação científica, não se ensina história, biologia, filosofia, humanas ou exatas quaisquer para se proteger contra indução, sugestão e promessas.