A sociedade brasileira está doente, muito doente. A relativização da moral, o afrouxamento do que é ético e aceitável, a liberalidade excessiva de costumes transformaram nossa sociedade em um paciente terminal, que mal reage a estímulos. Afinal, o que é certo e o que é errado? A tendência é responder a esta pergunta relativizando-a. "Depende", diria um. "Varia conforme o ponto de vista", diria outro. Será que realmente perdemos o consenso, o sentimento único que nos une e estabelece o tecido social?

Ao observarmos o cotidiano, vemos que a relativização é sentida nas relações sociais por parte do agente e por parte do beneficiado.

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Vejamos um exemplo. Ser policial, intrinsecamente, significa ser um zelador social, um agente que controla, inibe e traz ordem ao sistema. Ser bandido, do mesmo modo, significa ser um transgressor das regras, um elemento fora da legalidade, um rompedor da boa convivência, um diáspora.

Quando relativizamos as relações, tudo se mistura, tudo se inverte. Em muitos regiões do Brasil, é comum o bandido ser visto como um benfeitor da comunidade, impondo ordem e respeito e ajudando os cidadãos diante das necessidades em que o Estado (na maioria das vezes, diga-se de passagem) é ausente. Outrossim, quando nos deparamos com policiais caminhando em nossa direção, o sentimento, na maioria das vezes, é de medo. Abuso de autoridade, brutalidade e crueldade são substantivos que acompanham tal profissional, em relatos diários que mostram a autoridade como elemento impositivo e desagregador, num efeito contrário e antagônico que choca o observador.

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Ora, o sentimento de quem quer ser um policial deveria ser bem claro: o de ser um agente da ordem e da lei, zelando pelo bem comum e da sociedade e ponto. Aceitar suborno, ser corrompido, beneficiar-se do dinheiro do crime, entre tantos outros desvios de conduta, jamais deveriam passar pela cabeça de um aspirante ao ofício, muito menos de um profissional já atuante. E, na outra ponta, quem decide enveredar pelo caminho do crime, deveria saber que não há outra maneira de se enxergar sua atitude como danosa, nociva e perniciosa a sociedade. Isso não ocorre mais entre nós, justamente pela relativização dos valores.

Reflitamos sobre o papel das telenovelas, mais um outro belo exemplo. Observemos, primeiramente, o personagem identificado como "mocinho". Certamente, tempos passados, o "mocinho" seria o agente do bem, um altruísta que luta sempre para que o bem vença, para que todos se sintam bem e felizes no final da trama. Uma pessoa abnegada, capaz dos maiores sacrifícios em prol do amor e da justiça.

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Contudo, o que vemos hoje, despudoradamente, é um "mocinho" de preferência rico, famoso, manipulador, mentiroso, adúltero e ganancioso. Ser "o cara" é ser detentor do poder, é trair sua mulher e destruir sua família. É mentir para seus subordinados, é manipular seus próximos e amigos, é agir como um déspota prepotente e ausente de emoções sinceras. É isso que a TV vende.

E a "mocinha" então? Hoje, ser a "mocinha" é agir como uma mulher fácil, superficial e supérflua, interesseira, decotada e oferecida. É ter relacionamento com dois, três, quatro candidatos a "mocinhos" na trama, sem que nenhum telespectador se ofenda, troque de canal ou envie uma carta (carta?) a emissora reclamando e exigindo mudança de postura. A família tradicional, com seus valores tradicionais, como o respeito a vida, a proteção a pessoa, a dignidade e integridade pessoal, entre outros, vem sendo vilipendiada, destruída exatamente pela relativização de tudo o que se vê. É como se passassem a nós uma determinação de que tudo é permitido, de que não há mais limites.

Há limites sim. Para a formação de um cidadão decente, determinados valores são imutáveis e transcendem o tempo. Não roubar, não matar, não adulterar, não cobiçar... ou alguém ousa dizer que são valores errados ou ultrapassados? Porém, a relativização traz consigo um sério problema, além dos males que a própria acarreta: a indiferença. Quando passamos a adotar a indiferença com tudo o que ocorre em nossa volta, sem não mais nos indignarmos, ojerizarmos, repudiarmos atitudes ou comportamentos que destróem o que há de mais belo no ser humano, deixamos para trás nossa própria história.

A barbárie impera entre nós. Os corações estão superficializados e embrutecidos. Nada mais importa. Então, o que realmente importa? Curar-se-á o doente de seu mal ou ele o destruirá? #Educação