Saí de São Paulo, Butantã, em uma van (dessas que parecem clandestinas) sentido Cotia. Era mais ou menos 18 horas e como de costume, além da rodovia cheia, o veículo público que eu peguei também estava lotado. Praticamente uma lata de sardinha quente, fedorenta e mal-humorada. 

  Estava eu de pé, sossegada, quando um senhor (idoso, cabelos brancos e tudo), entrou e se acomodou ao meu lado. Olhei em volta, rosto a rosto. Nenhum ser daquela lata de sardinhas fumegante se deu ao trabalho de se levantar como um gesto de gentileza para com o senhor que havia chegado. “Não acredito”, pensei. “Tenho que fazer alguma coisa”. Continuei encarando as pessoas. De maneira geral, dentre os passageiros sentados, a maioria eram: moças jovens com fone de ouvido, garotos de chinelão (nada contra, adoro um "Ipanema") e trabalhadores roncando no fundo da van.

  Como alguns já haviam percebido minha indignação e mesmo assim tudo continuava igual, resolvi criar coragem para gravar um vídeo sobre aquilo perguntando ao (n/p)obre senhor qual era a opinião dele sobre aquela situação. O intercedi e apresentei o problema, mas ele infelizmente não quis gravar, não gostou muito da ideia. Conformei-me com a resposta dele, porém falei em alto e bom som sobre a falta de gentileza que estávamos presenciando. Foi um papo interessante. O senhor ficou surpreso com a minha preocupação, mas concluiu que tudo aquilo era NORMAL para ele, pois sempre acontecia. Agora pensemos: QUANDO FOI QUE UM ABSURDO PARADOXALMENTE BANAL COMO ESTE VIROU NORMAL? Acho que perdi essa parte...

  Momentos após minha conversa ter acabado com o tal senhor, um rapaz muito simpático que também estava de pé, virou pra mim e fez um comentário sobre o que estive falando inicialmente. Após um diálogo inicial, outro garoto, alto e curioso, também expressou sua opinião. Após alguns quilômetros de conversa chegamos a algumas conclusões. A primeira delas foi que essa noção de generosidade e mera #Educação deveria ser ensinada pelos pais.

  Queridos pais, o que mais vocês estão esquecendo de nos ensinar?
  A seguinte conclusão foi uma discussão sobre a juventude dentro do mundo tecnológico em que nós vivemos, a infância subordinada a bens materiais, a manipulação da propaganda que provoca um mundo de consumismo absurdo e consequente individualismo do ser; o que significa viver numa era “neoliberal” e o que é ter liberdade para nós que somos escravos de todas as formas de tecnocracia hoje existentes. Foi quase uma tese de TCC.

  O mais incrível foi debater dentro daquele local claustrofóbico e perceber que algumas orelhinhas se voltavam para nós, línguas se coçavam dentro da boca de uns para darem suas respectivas opiniões, enquanto outros, fingiam-se dormindo para evitar assumirem dentro de cada um a culpa de estarem fazendo o que estavam fazendo.

  Sinceramente, foi a melhor coisa do meu dia. Quem diria, nunca pensei que dentro de uma lata de sardinhas poderia haver teses, argumentos consistentes e novos amigos. Que tal, vai uma sardinha aí?