Desde os primórdios da humanidade, conforme a Bíblia, as pessoas se desentendem e se agridem. Às portas do paraíso, Caim matou Abel por ciúme. Teoricamente, naquele tempo só existiam quatro pessoas na terra: eles e seus pais. Imagine hoje, com uma taxa de nascimento calculada em quase quatro pessoas por segundo. Infelizmente temos que considerar "normal" que as pessoas se antipatizem e queiram ver seu "próximo" pelas costas...

Nosso território tão amplo nunca nos permitiu parar para considerar a questão populacional. Nem a nossa própria questão, muito menos a internacional. E se há pouco mais de um século queríamos que estrangeiros viessem para cá, a fim de substituir a mão-de-obra escrava que se libertara do jugo escravista, hoje vemos como problema - ou fechamos os olhos para - a entrada de haitianos fugidos de seu país derrocado por um terremoto há alguns anos.

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Mas o problema é que em todo o mundo os Estados estão se preparando para um confronto muito mais árduo, e de difícil controle e solução. Seja por questões econômicas, de saúde, políticas ou religiosas, hordas de imigrantes estão, nesse momento, tentando chegar a algum lugar seguro para sua sobrevivência, deixando para trás as terras de seus ancestrais, onde não conseguiram encontrar tranquilidade para levar suas vidas.

Mas, o que para essas pessoas é uma solução, para as pessoas que vivem nos lugares onde esses refugiados tentam chegar, é um problema. Daí começam a se formar políticas de exclusão baseadas unicamente na intolerância e dizem: "Não queremos essa gente por aqui!". A França convive, de tempos em tempos, com a ameaça da chegada ao poder da política de extrema-direita "bota-fora" de Le Pen.

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Antes com o pai, hoje com a filha. Há seguidores dessa ideologia por toda a Europa, que reivindicam até pena de morte; acontece em países que se dizem invadidos com gente que foge de áreas conturbadas ou sem muita perspectiva de futuro tranquilo. Essa gente quer viver.

Aqui no Brasil, por menos que isso, existem manifestações de intolerância que se concretizam nas urnas. Candidatos que conseguem ser eleitos graças (ou apesar) de seus discursos pró-intolerância. No Rio Grande do Sul, Luiz Carlos Heinze conseguiu ser o candidato número um do Estado, e foi o mais votado para a Câmara Federal. Reconduzido. Suas ideias progressistas (seu partido é o PP) defendem que negros, índios e homossexuais atrapalham o desenvolvimento do país. Em suas próprias palavras, esses grupos são "tudo o que não presta". Pela quinta vez consecutiva ele vai nos representar como deputado federal. Somos assim mesmo, caso contrário ele não teria sido o mais votado do estado. Ele nos representa.

E de caso em caso, a vida humana vai se tornando um problema.

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Detesto você, meu próximo, seja por que seu carro ocupa uma vaga que eu poderia usar, seja por que você é portador de ideias diferentes da minha; ou tem a cor de pele diferente da minha; tem procedência ou ancestralidade que eu considero desabonadora; ou ainda, por suas escolhas sexuais. Você, caro leitor, pode escolher outros motivos. O importante é perceber que em alguma medida somos tentados a repudiar alguém simplesmente por que ele existe e essa existência nos incomoda. Se pararmos para pensar que nós incomodamos também a alguém, poderemos, então, nos preparar para guerra. Se pensarmos que nossos filhos aprendem conosco, precisamos rever o que ensinamos para eles se quisermos paz em nossas vidas e futuro para eles.