Sem falar nas óbvias diferenças morfológicas, homens e mulheres comprovadamente diferem também em suas aptidões cognitivas, ainda que seja muito controverso quanto dessa diferença seja resultado de fatores biológicos ou de fatores sociais. Essa mesma controvérsia - "natureza x criação" - também se aplica à função olfativa. Apesar das diferenças regionais e sociais de atitude em relação ao olfato, as mulheres geralmente apresentam maior interesse que os homens em relação a esse sentido, e, não importa a idade, comprovadamente os superam em sensibilidade, identificação e memória olfativa, e em tarefas em que os cheiros são classificados com base em características psicológicas como familiaridade, intensidade, frescor, agradabilidade e outras.

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A razão biológica para essa superioridade feminina na percepção dos cheiros parece ser o número muito maior de células no chamado bulbo olfatório, região do cérebro associada ao sentido do olfato, é o que sugere estudo publicado pela revista científica "PLoS One", noticiado pela edição de Novembro da Revista FAPESP.

O estudo foi efetuado por pesquisadores do Rio de Janeiro e de São Paulo. Foram analisados 18 cérebros do banco de encéfalos da Universidade de São Paulo, sendo 7 de homens e 11 de mulheres, todos com idades de 54 a 99 anos. Enquanto a massa média dos bulbos olfatórios não apresentou diferença significativa entre mulheres e homens (0,132 g e 0,135 g, respectivamente), houve diferença significativa sexo-dependente no número médio de células dos bulbos olfatórios, superior em cerca de 40% para as mulheres, a saber : células totais 16,2 milhões nas mulheres e 9,2 milhões nos homens, células neuronais 6,9 milhões nas mulheres e 3,5 milhões nos homens, e células não neuronais 9,3 milhões nas mulheres e 5,7 milhões nos homens.

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No artigo publicado, os pesquisadores analisam os resultados experimentais à luz de outros estudos, discutindo de forma abrangente uma série de questões, como a relação geral entre quantidade de células do cérebro e suas funções, o papel específico do bulbo olfatório na sensibilidade olfativa, o papel dos hormônios femininos na maior sensibilidade olfativa das mulheres, como a neurogênese em adultos afeta a densidade neuronal do bulbo olfatório, a influência do envelhecimento no olfato.

Sugerem, finalmente, que o melhor desempenho das mulheres em relação aos homens na função olfativa pode ser explicado pela superioridade numérica das células dos respectivos bulbos olfatórios, embora seja difícil inferir o mecanismo enquanto não forem conhecidos os circuitos específicos que essas células estabelecem. Isso pode estimular futuros estudos sobre as sinapses do bulbo olfatório.