A decisão do tribunal supremo italiano em um processo movido contra a Eternit, uma empresa de construção com sede na Suíça, pode ter implicações importantes para a continuação do uso do amianto em todo o mundo. Na passada quarta-feira, o tribunal de Roma cancelou uma sentença de prisão de 18 anos do ex-proprietário da Eternit, Stephan Schmidheiny, que foi acusado de desastre ambiental, tendo sido considerado culpado de não cumprir as regras de segurança em duas decisões anteriores. A base da decisão do tribunal foi a de que o estatuto de limitações havia passado, - Eternit deixou a Itália há 25 anos - mas os sindicatos locais e associações de vítimas do amianto, que trouxeram o caso em conjunto, pretendem levá-lo para Estrasburgo.

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As famílias das vítimas gritaram "Que vergonha!", quando o veredicto foi pronunciado. O grupo era composto por cerca de 200 pessoas, a maioria deles de Casale Monferrato, a cidade italiana onde se podem contar milhares de as vítimas de doenças relacionadas com amianto. Outros vieram de países como a Suíça, o Reino Unido, os EUA, Argentina, Bélgica e Brasil. Bruno Pesce, o líder do Afeva, referiu, na altura da decisão: "Esta sentença é um choque, tem sido um tiro em nossos estômagos, parece que milhares de mortes nunca existiram. Nós não podemos parar a nossa luta quando as pessoas continuam morrendo a cada semana. Meu país perdeu a chance de dizer ao mundo a verdade. Nós ainda pedimos #Justiça".

Ativistas no Brasil estão particularmente consternados com a decisão do tribunal.

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O país é o terceiro maior produtor mundial de amianto - 300 mil toneladas por ano - e um grande consumidor. O amianto tem sido amplamente utilizado no Brasil, principalmente na forma de cimento para telhas e painéis de telhados, placas de gesso e tanques de água domésticos e industriais. De acordo com Ubiratan de Paula Santos, pneumologista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, estima-se que o Brasil responde por 10% das mortes globais relacionadas com amianto. "É hora de pôr fim a este terror, caso contrário, daqui a 30 anos esta epidemia vai aumentar e vai chegar a níveis incontroláveis", disse o médico.

O caso italiano é o maior julgamento por danos ambientais na história da Europa, com mais de 2.890 pessoas lesadas. Mais de 2.000 morreram ou estão sofrendo de doenças graves. Linda Reinstein, presidente da Organização da Consciência da Doença por Amianto, com sede nos EUA, disse: "Com esse veredicto, dinheiro e poder venceram novamente. Flagrante desrespeito da Eternit para a saúde pública e o meio ambiente.

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É repreensível e criminal. "

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, cerca de 125 milhões de pessoas estão em contato com o amianto em seus locais de trabalho, e todos os anos mais de 107 mil pessoas morrem como resultado. Apesar de o amianto ter sido proibido na Itália em 1992 - e no resto da Europa, em 1999 - ainda é largamente utilizado no Brasil, Rússia, China, Índia, Indonésia, Vietnam e Tailândia. O México foi o principal destino para os produtos de amianto dos EUA, correspondendo por 39% das exportações, mas os EUA afirmam ser dependentes das importações de amianto para atender às necessidades de fabricação e, sem a proibição, as importações e as exportações continuam. No ano passado, todo o amianto que os EUA importaram veio do Brasil.

O amianto é proibido em seis estados brasileiros, no entanto, e apesar das resoluções da OMS, ainda é amplamente produzido e tem sido uma mercadoria valiosa nos últimos 50 anos. Em 1995, a Abrea, a Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto, foi formada por centenas de ex-trabalhadores de Osasco, Estado de São Paulo. A antiga capital de fibrocimento do Brasil é hoje a capital do movimento das vítimas do amianto. Fernanda Giannasi, membro fundador da Abrea e ex-inspetora com o Ministério do Trabalho federal, é uma defensora dos direitos das pessoas expostas ao amianto. "Nós não vamos desistir. O veredicto italiano não vai parar a nossa luta contra o amianto no Brasil. Queremos justiça para nossas vítimas ", disse.