Sabe aquele momento em que você parece que acordou para algo que estava adormecido em sua vida? Algo que você deixou esquecido na névoa do passado, concentrando-se nas nuvens dos problemas presentes quando, sem mais nem menos, numa espécie de insight, deu-se conta daquilo que se foi? Pois é, aconteceu comigo hoje e deu-se através de um objeto (ou da falta dele) prosaico e descartável: um canudinho. É, um canudinho. Desses, de plástico. Molecamente, ao assaltar a geladeira de casa e encontrar um "Toddynho" perdido, chacoalhei o danado, pronto a sorver o precioso líquido quando notei que não havia um canudinho acoplado ao mesmo. Procurei na geladeira para ver se não o encontrava perdido em algum canto e nada.

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E aí aconteceu o insight.

Despreocupadamente, sabia que encontraria outros canudinhos perdidos nas gavetas dos armários da cozinha. Afinal, meus filhos sempre os deixavam por ali, próximos aos seus copos de plástico gigantescos com as figuras de seus super-heróis favoritos, como os do Batman e do Homem-Aranha. Seria fácil encontrar um. Para minha surpresa, nada. Nenhum canudinho perdido em nenhuma gaveta. Achei aquilo estranho e, observando mais a fundo, também notei que não, os copos plásticos também não estavam mais nos armários. Nenhum deles.

Incomodado com a situação e com ares de detetive, comecei a peregrinar por alguns cantos estratégicos da casa e a ficha começou a cair. O velho Hulk com pilhas grandes acopladas em suas costas com durex, a fim de dar a aparência de um super-herói intergalático também já não se encontrava escondido atrás da porta, pronto a dar o bote no primeiro intruso a aparecer no quarto das crianças.

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Os "googles", miniaturas de monstrinhos e fantasminhas, que ficavam enfileirados na janela por ordem de cor e de raridade simplesmente sumiram. Os Transformers radicais e incrementados (que me custaram muito caro, por sinal), estavam dentro de um guarda-roupa, guardados e esquecidos.

E assim, minha investigação continuava cada vez mais surpreendentemente entristecida e realista. Os jogos de tabuleiro mofando em cima do guarda-roupa (sempre ele!); dos três skates, só um restava. A velha e querida bola de basquete estava abandonada embaixo da cama, murcha e adormecida. Os carrinhos... onde foram parar os carrinhos?

Enfim, a iminente constatação. Meus filhos cresceram. E sua infância ficou para trás. Não que eu tenha sido um pai workaholic, que pensasse apenas em minha profissão e não curtisse com eles a idade tenra, pelo contrário. Curti sim, e muito. Vivenciei grandes momentos com eles. Peguei-os muito no colo e ao mesmo tempo, já que eram gêmeos e cresceram juntos, beijei-os e abracei-os, rolei com eles no chão, eduquei-os e disciplinei quando necessário.

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Mas não me dei conta que o tempo passa rápido demais. Não me preparei para a passagem dos anos. E quando os anos chegam (e eles chegam!), você percebe que queria mais.

Você percebe que, mesmo tendo curtido e vivido ótimas histórias, poderia ter vivido muito mais, poderia ter se dedicado mais um pouquinho, mais um minutinho, mais uma meia-hora, ou um dia, ou um mês, ou um ano, ou mais uma vida inteira ao lado daqueles garotos que, hoje, jovens-homens que são, não podem mais lhe servir de anjinhos de ternura que Deus colocou em suas mãos para que você cuidasse com zelo e amor. Agora suas necessidades são outras, seus desejos são outros e suas asas já estão abertas para voar. E sem você.

Bem, a mim só resta beber o Toddynho sem canudo mesmo. E pensar que só me resta uma esperança. Que venham logo meus netos!!! #Família #Opinião