"Outro valor perdido é a vergonha. Vocês perceberam que as pessoas não têm mais vergonha, e que podemos encontrar qualquer sujeito acusado das piores corrupções, misturado com gente de bem, com um largo sorriso no rosto, como se nada tivesse acontecido? Em outros tempos, sua família teria se enclausurado, mas agora tudo dá na mesma, e alguns programas de televisão até convidam o criminoso e o tratam como um distinto senhor." Sábato, E.

O trecho selecionado do livro Resistência, do escritor argentino Ernesto Sábato, nos força a buscar uma consciência da realidade que estamos vivendo atualmente, especialmente quando a grande mídia nos bombardeia incessantemente com novidades sobre os problemas ocorridos na Petrobras por causa da corrupção.

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A Petrobras é, apenas, o alvo do momento, pois, meses atrás foi o mensalão e, amanhã, sabe Deus o que será. Mas sabemos que será... E a cada notícia, novos nomes são sugeridos, e os velhos nomes são repetidos à exaustão, mas parece que o ditado 'água mole em pedra dura, tanto bate até que fura' não se aplica nesses casos. Cada acusado reitera, em sua defesa, o velho "eu não sabia disso", ou então "eu não participei", numa tentativa de escapar, incólume, da culpa que tenta agarrar todos pelos pés.

A batalha mais recente, no caso, é a da geóloga Venina Velosa acusando a presidente da Estatal, Graça Foster, de saber das falcatruas, porque ela mesma, Venina, enviou e-mails e falou com a presidente pessoalmente. Graça diz que, se houve denúncia, as palavras ditas e escritas não foram entendidas nesse sentido.

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Mais uma vez entra o "eu não sabia" na história. Estranho desentendimento para uma pessoa levada a um cargo tão importante numa empresa não menos importante. Mas, entre o desmerecer a inteligência da acusadora, e a inteligência do povo, os acusados preferem ficar com as duas opções. Vergonha de ter sido pego no flagra, nunca há de acontecer.

Fosse no Japão, esses envolvidos no caso já teriam cometido hara-kiri, tentando lavar com sangue a desonra com que os seus nomes tinham sido manchados por seus comportamentos torpes. Isso é lá no Japão. Ou era. De repente, por lá, já estão deixando de lado essa "besteira" de se incomodar com uma acusação feita por quem tem inveja da gente. O negócio é levantar a cabeça, dizer que sempre foi do bem, e que é tudo intriga da oposição, mesmo que os documentos provem o contrário. E até que os documentos não existam, ou não provem, nada melhor que fazer uma retirada estratégica para acompanhar o caso de longe - e se defender - , sem deixar a empresa afundar ainda mais num mar de lama.

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Graça até que tenta se livrar dos holofotes e, acertadamente, pediu para sair. Erra a presidente da estatal ficando, e erra, ainda mais, a presidente Dilma em não aceitar o pedido da outra. Parece que a presidente do Brasil tem medo de ficar sozinha no meio do tiroteio. E enquanto ela vai tentando driblar a sujeira cada vez mais aos seus pés, o nome da empresa, outrora respeitável, vai perdendo credibilidade até mesmo para os brasileiros que só a conhecem através da imagem criada ao longo de décadas. A Petrobras cavou fundo suas tecnologias e bases para ser reconhecida no mundo todo, mas acabou afundando por causa de corruptos ávidos em ganhar dinheiro sem muito esforço.

Que a vergonha persista e se faça presente, pelo menos, em nós brasileiros, aviltados como cidadãos, por administrações incompetentes e ineficientes, e que essa nossa vergonha nos faça exigir melhor cuidado com o patrimônio e o dinheiro público.