O que esperar das próximas manifestações pró e contra impeachment da presidenta Dilma? Tudo. Esta é a melhor resposta nesses momentos de confusão coletiva e disputas acirradas pelo controle da opinião pública e do poder. As últimas manifestações foram um exemplo disso. Dificilmente alguém - nem mesmo os sociólogos de plantão e comentadores de telejornais noturnos - pode fazer uma análise definitiva sobre o que aconteceu nas ruas.

A diferença é que, agora, algumas coisas estão profundamente mudadas no Brasil: um Congresso muito mais conservador acaba de tomar posse, e isso vai ser desastroso para a presidenta. O novo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, político conservador ligado à igreja evangélica, foi a pá de cal na intenção do governo dar as cartas na Câmara.

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Esse foi o primeiro e talvez o mais duro golpe. Outros virão. A simples matemática mostra o quanto a presidenta vai penar nas mãos dos adversários. E os partidos de oposição - total fracasso nos últimos anos -, surfando na onda das denúncias contra a Petrobras e nos 51.041 milhões de votos dados a Aécio no segundo turno, querem, sem hesitação, deixar Dilma na lona e assumir o protagonismo político.

A sensação que fica é a de dois times que se preparam para a guerra: os eleitores de Dilma - alguns já muito descontentes com o próprio governo -, que vão fazer valer seus votos acima de qualquer coisa; e os eleitores dos tucanos, que, inconformados com a derrota no segundo tudo, desejam a retirada da presidenta. Um desejo, diga-se de passagem, inconsequente, levando em consideração que a presidenta, pelo menos até agora, não cometeu crime algum e foi eleita democraticamente.

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Um jogo complicado e sem previsão para acabar - quer dizer, talvez acabe em 2018. Ou não. Talvez acabe amanhã.

Tudo isso parece ser reflexo de um país que procura loucamente compreender seu papel no mundo e, a despeito dos interesses mais medonhos e mercadológicos, caminha (ou caminhava) com certa segurança até aqui…

Desde as jornadas de junho de 2013, o Brasil se esforça para entender o que aconteceu nas ruas. O que foi aquela convulsão que começou como uma simples reivindicação por melhores condições nos transportes, sacodiu o país e terminou elegendo os políticos que ela dizia não suportar? Talvez seja desse ambiente de tensão e muita maluquice que vá surgir o novo, rompendo com a "eterna" disputa empobrecedora e tacanha entre os dois maiores (ou mais influentes) partidos brasileiros, deixando as velhas fórmulas de explicar o país no chinelo. A população (pró e contra) que vai para as ruas quer respostas, mas respostas que modifiquem sua vida. E respostas são urgentes.

A água

Por falar em respostas, o governo de São Paulo, longe de abrir um diálogo com a população - coisa que deveria ter feito há anos -, tenta, com a ajuda de toda a imprensa paulista, convencer as pessoas de que a tragédia ambiental que se deu por aqui é culpa da falta de chuva.

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Mais: é culpa também da população, que não soube economizar água.

Transfere para o inocente o fardo de incapacidade e incompetência que não é dele. Usa de malabarismo e má-fé. A multidão, que tem sofrido diariamente com torneiras secas (na periferia acontece já há bastante tempo), vê sua vida se transformando num deserto sem possibilidade de recuperação.

O esgotamento das reservas de água significa também o esgotamento da credibilidade política do governo paulista, mesmo que ele finja não acontecer. Pesquisas já indicam uma queda de 10 pontos percentuais na aprovação do governador. E a tendência é piorar. A fatura chegaria mais cedo ou mais tarde.

O problema é que essa fatura vem acompanhada de uma tragédia sem precedentes: um dos maiores crimes ambientais foi cometido aqui. A relatora das Nações Unidas para o Direito à Água e ao Saneamento, Catarina Albuquerque, afirmou ao jornal Folha de S.Paulo: "O racionamento de água em São Paulo não é culpa de São Pedro, mas sim das autoridades, da Sabesp e da falta de investimentos". #Manifestação