As manifestações que se iniciaram em 2013 podem ser interpretadas como revoltas que fazem parte de um "choque de democracia". Este choque teria sido uma resposta a um travamento do sistema político, que não permitia que insatisfações encontrassem caminhos para se expressar. Essa é a análise apresentada pelo professor Marcos Nobre, da Unicamp, em seu estudo sobre história política recente do Brasil. Para ele, após o impeachment de Collor, o apoio do PMDB passou a ser visto como necessário à governabilidade, gerando o fenômeno responsável por esse travamento político, que ele chama de peemedebismo.

Mas as manifestações também podem ser interpretadas como parte de uma crise nos partidos políticos em todos os países democráticos do planeta, fator que teria maior peso que a dinâmica interna de nossa democracia, de acordo com o pesquisador Vinícius Justu, da USP.

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Mas o desenrolar das manifestações mostra que, independente da origem do problema ser a conjuntura interna ou o contexto internacional, não temos em nosso sistema político, espaços que atendam de maneira satisfatória às demandas atuais por participação. São uma evidência disso tanto as passeatas por todo país, que ocorreram em março deste ano, quanto as novas manifestações marcadas para abril. Isso reforça a tese de que o sistema político não acompanha o avanço de nossa cultura democrática.

Outra evidência deste problema é a atual crise de abastecimento de água em São Paulo em que, mesmo com espaços de participação em decisões como os comitês de bacias hidrográficas, a população tem pouca voz e as principais decisões priorizam interesses eleitorais e privados, em detrimento da qualidade dos serviços públicos.

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A análise de fenômenos sociais e políticos recentes é sempre um desafio para cientistas sociais. Ao contrário das ciências exatas e naturais, em que a maior parte dos fenômenos pode ser analisada de forma controlada em experimentos ou testes de hipóteses, nas ciências humanas as explicações partem de abstrações - os conceitos - que devem se articular em explicações teóricas para os fenômenos sociais passados ou em curso. As últimas manifestações mostram que é preciso ampliar tanto o debate acadêmico, quanto democrático. Exposta a principal limitação científica, temos que focar em soluções práticas para nossas demandas por participação.

Apesar de terem sidos anunciados pela imprensa, inúmeras vezes, como protestos pelo impeachment da Presidenta Dilma, o Datafolha apontou que, em São Paulo, palco da maior manifestação este ano, apenas 27% dos entrevistados tinham o impeachment como motivação principal de estarem nas ruas e 82% se declararam eleitores de Aécio Neves.

Parece, portanto, que temos muito a aprender com nossos vizinhos argentinos. Lá, as batidas de panelas costumam ter endereços tão certos, que, basta perguntar a um taxista, ou balconista de um comércio, para saber do que se trata o panelaço da vez, com direito a todo contexto político, medida ou ato governamental que motivou e histórico de protestos do grupo envolvido. Por aqui, parece que #Governo, imprensa, cientistas e manifestantes estão longe de falarem a mesma língua.

Fontes:

Nobre, Marcos. Choque de democracia: Razões da revolta. Companhia das Letras (e-book), 2013.

Justo, Vinícius. O peemedebismo de Marcos Nobre. Revista Amalgama: atualidade e cultura, 2013.