BN: Você concorda com a análise do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que o atual sistema brasileiro é um presidencialismo de cooptação (referindo-se aos pequenos partidos e o anseio do poder), e não de coalizão? 

LPC: É uma fala política. O Brasil não é o único país que adota o modelo de democracia de consenso. Boa parte dos países europeus têm características parecidas. A formação de amplas coalizões no Executivo com uma base parlamentar multipartidária acontece na Itália e na Suíça, por exemplo. No Brasil há uma divisão formal entre o poder Legislativo e Executivo; um sistema eleitoral de tipo proporcional com grandes distritos; federalismo acentuado; um bicamaralismo simétrico; e um judiciário independente com poder revisor.

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Tudo isso contribui para a formação de múltiplos pontos de veto no sistema político, o que leva a que as decisões sejam lentas e consensuais. O lado bom desse sistema é a moderação e o respeito aos direitos das minorias. E não convêm descuidar disso. 

Mas acho que a sociedade talvez esteja ficando cansada da morosidade de nossos governos. Algumas mudanças simples no sistema eleitoral como a adoção de um patamar nacional mínimo de votos para os partidos e a proibição de coligações eleitorais em eleições parlamentares poderiam ajudar a diminuir o número de partidos no Congresso, o que facilitaria a tomada de decisões. No entanto, a agenda da #Reforma política fracassou mais uma vez no ano passado. Acho que a fala do ex-presidente traduz de forma prática a inquietação que muitos sentem com a falta de eficiência do nosso sistema político.

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BN: Já faz bastante tempo que se nota, nas eleições, uma disputa entre o PT e o sentimento anti-PT - ultimamente representado pelo PSDB. Você ve espaço para que se fuja dessa dualidade? Existe uma brecha para algo novo?

LPC: A alternativa é a Marina Silva, que teve um bom papel nas duas últimas eleições e creio que voltará a ter representatividade em 2018. Crises como essa que vivemos aumentam o risco de que surjam outsiders. Chavez surgiu na política venezuelana exatamente dessa forma, após liderar uma revolta militar contra os partidos tradicionais em 1992. Até mesmo onde o público é altamente escolarizado e a democracia consolidada é possível encontrar exemplos de candidatos que se beneficiam de crises. Em 2010 um comediante ganhou as eleições em Reykjavík, a capital da Islândia, país com uma das maiores rendas per-capita do mundo, mas que praticamente ‘derreteu’ com a #Crise financeira de 2008. O ‘Melhor Partido’ foi o mais votado prometendo que não iria honrar qualquer de suas promessas eleitorais, entre as quais, comprar um novo urso para o jardim zoológico e abrir uma Disneylândia onde fica o aeroporto. Na política, nem sempre novidade é coisa boa. #Governo