Confira abaixo a primeira parte da íntegra da entrevista com Leandro Piquet Carneiro, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP e membro do Centro de Liderança Pública (CLP).

Blasting News Brasil: Como você vê o cenário político brasileiro nesse início de 2016 e quais os principais desafios do #Governo?

Leandro Piquet Carneiro: Não vejo muitas novidades no cenário. O governo passará o ano tendo que fazer a chamada "gestão de #Crise", e não vejo espaço para muito mais do que isso. Assuntos importantes como educação, segurança pública e saúde ficarão fora do debate, seja no Executivo, seja no Legislativo. Os erros foram muitos e a conta chegou.  

BN: Recentemente, Mauricio Macri interrompeu a hegemonia Kirchnerista na Argentina.

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Nicolas Maduro teve derrotas importantes no parlamento da Venezuela e #Dilma Rousseff vive com a sombra do impeachment. A esquerda fracassou na América Latina?

LPC: A esquerda latino-americana é muito heterogênea e não se pode falar de fracasso de uma forma geral. Michelle Bachelet, no Chile, Tabaré Vasquez no Uruguai e Guilhermo Solís, na Costa Rica, ganharam recentemente eleições por partidos de esquerda. É verdade que são muito mais moderados do que Maduro e Kirchner. Não defendem grandes intervenções do Estado na economia, acreditam na abertura para o comércio mundial e não fazem campanhas contra a liberdade de imprensa. São lideranças que respeitam as regras e não apostam na polarização política. Mesmo Ollanta Humalla e Evo Morales que iniciaram seus mandatos com discursos mais radicais, moderaram suas ações.

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Morales foi chamado pelo Financial Times de “o socialista mais exitoso do mundo” e, de fato, a economia boliviana é agora três vezes maior do que era quando ele chegou ao poder em 2005. Humala por sua vez garantiu a participação do Peru na Trans-Pacific Partnership (TPP) liderada pelos EUA. Todos esses cinco países tiveram crescimento do PIB, baixa inflação, e baixo endividamento público em 2015 segundo o FMI.

São governos de esquerda que estão dando certo do ponto de vista econômico e que podem ganhar ainda muitas eleições, ou mesmo que não ganhem, provavelmente terão enorme peso eleitoral nos seus países. O que acontece no Brasil, na Venezuela e na Argentina é diferente. No Brasil, há o fator negativo da liderança da Presidente Dilma e a corrupção do PT, que no mais é um partido moderado e que inspirou a esquerda da América Latina a seguir nessa direção. A crise do kirchenismo na Argentina, não se reflete diretamente na crise do peronismo que continua forte e fará o possível para atrapalhar o mandato de Macri.

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O caso mais extremo é o colapso do chavismo na Venezuela que ocasionou perdas econômicas e sociais significativas. Avalio que será preciso mais de uma década para minimamente recuperar a capacidade das instituições públicas que estão destruídas pela partidarização e pela ideologia bolivariana. O problema é que mesmo nesses países onde a esquerda foi marcadamente incompetente, não acho que podemos falar de um fracasso irreversível. As pesquisas de opinião pública mostram que parte importante da população realmente gosta das propostas de esquerda e vê o estado como mais eficiente e justo do que o mercado. Estamos falando de eleitores que não se importam muito se as estradas estão ruins, desde que não tenham que pagar pedágio. Quanto mais benefícios e quanto mais gratuidade nos serviços públicos, melhor. As bandeiras da eficiência e da boa gestão pública ainda não conquistaram o coração da maioria dos latino-americanos e isso contribui para que a esquerda se apresente como uma alternativa viável, mesmo onde governou mal.