BN: #Lula, inegavelmente, é um político mais experiente e habilidoso que Dilma. Entendes, Leandro, que com ele ao lado, Dilma poderá tocar o mandato até o final?

LP: São muitas crises que se conectam e nenhuma delas permite vislumbrar um caminho suave para o governo. O primeiro governo Dilma promoveu políticas econômicas desastradas e que produziram a enorme crise econômica na qual estamos metidos e da qual será difícil sair sem medidas muito duras de ajuste fiscal. Praticamente não houve nenhuma decisão certa em matéria de política econômica e quase tudo precisa ser refeito. A segunda crise é política e tem relação com a incompetência da presidente Dilma na condução de seu amplo Gabinete Ministerial.

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A base partidária está esfacelada e sem coordenação e ela parece ser incapaz de acordar de manhã e tomar uma decisão sobre o que fazer com seus aliados, e mais difícil ainda para ela é lembrar na manhã seguinte a decisão que tomou e delegar o que deve ser delegado para que alguém possa fazer alguma coisa de útil no final do dia.

BN: É aí que pode ganhar força a possibilidade de impeachment?

LP: A presidente Dilma e o presidente Maduro (Nicolás Maduro, presidente da Venezuela) se parecem nesse aspecto. São completamente desprovidos dos mais básicos atributos políticos necessários para exercer as funções a que foram guindados. Chegaram aonde chegaram, muito mais por terem sobrevivido a um longo ciclo de mortalidade de lideranças no entorno político no qual viviam, do que por suas qualidades como líderes.

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A solução de nomear Lula, e praticamente convertê-lo em um primeiro-ministro, pode dar algum fôlego na gestão da crise econômica e aliviar a crise política, mas ele é um vetor que alimenta a crise jurídico-policial na qual o governo também está imerso. Na minha avaliação, o cenário mais provável é o impeachment.

BN: Na quarta, o STF rejeitou em maioria o recurso sobre o rito de impeachment. Como você avalia a decisão?

LP: A decisão do STF mudou um aspecto importante do rito processual do impeachment proposto pela Câmara: o Senado poderá rejeitar a instauração do processo, mesmo após decisão da Câmara. Isso pode atrasar e criar alguma confusão no processo. Mas a base do governo está muito enfraquecida e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, trabalha duro para ter o controle da Comissão Processante. Rapidamente saberemos quem vai controlar a comissão e em três meses a presidente pode estar impedida. O problema é que o impeachment é uma regra constitucional para afastar presidentes que cometeram crimes e estamos prestes a usar esse dispositivo para afastar um presidente que demonstra claramente ter perdido a capacidade de governar.

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O crime da responsabilidade fiscal se apresenta como um argumento viável em função da crise política, mas esse movimento não convence a todos e pode terminar derrotado. O sistema presidencialista é simplesmente rígido demais e no caso brasileiro não existem mecanismos de ajuste quando o poder Executivo é ocupado por alguém sem aptidão para o comando político. É pouco provável que venhamos a ter no futuro próximo um presidente tão incapaz quanto a presidente Dilma, mas quando acontece um acidente como esse, ficamos presos a ele por quatro anos. É tempo demais. #Dilma Rousseff #entrevista