Com um momento político tenso e as ruas a um passo da convulsão, a Blasting News Brasil conversou com o cientista político e professor da Universidade de São Paulo (USP), Leandro Piquet. Confira a primeira parte da #entrevista:

Blasting News Brasil: De que forma você interpretou a ida de #Lula para o Ministério da Casa Civil justamente em um momento em que ele é alvo de investigações da Operação Lava Jato?

Leandro Piquet: É uma vitória do Partido dos Trabalhadores sobre a própria presidente Dilma. A oposição pode pedir o impeachment ou a renúncia, o PT e Lula trabalharam competentemente para construir um #Governo de coabitação com um presidente fraco, Dilma, e um primeiro-ministro forte, Lula.

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Mas ele está sendo investigado pelo Ministério Público Federal, e embora os desdobramentos dessa investigação sejam desconhecidos, ele poderá enfrentar um processo e até uma condenação em breve. Isso obviamente limita muito o poder de negociação e articulação de Lula como ministro da Casa Civil.

BN: No último domingo, milhares de brasileiros lotaram as ruas do país contra Dilma e Lula. Dias depois, Dilma nomeia Lula como seu ministro. Isso prova que o governo "não está nem aí" para as ruas?

LP: Na visão do PT e da esquerda, os que estão nas ruas são ilegítimos nas suas reivindicações. Há um vocabulário político próprio que tem sido aplicado com muita competência por esses segmentos para deslegitimar as manifestações. Os que estão na rua são os golpistas, coxinhas, classe média, reacionários, adeptos da marcha da família, enfim, gente que não tem legitimidade para pedir mudanças.

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É assim que os que simpatizam com o governo e com a esquerda traduzem e classificam as manifestações. O fato é que a sociedade está dividida. Não há consenso na sociedade, não há uma “voz das ruas”, há várias e dissonantes vozes. O governo está simplesmente ouvindo a voz que consegue ouvir, ou que quer ouvir. O que está acontecendo hoje é muito diferente do que aconteceu em outras crises semelhantes.

BN: Há uma divisão política?

LP: Divisões políticas sempre existiram no país, havia políticos a favor do Collor, ou políticos que votaram no Maluf no Colégio Eleitoral em 1985, mas não havia apoio na sociedade a esses políticos. Não havia um movimento popular a favor de Collor ou de Maluf, como há a favor de Dilma, Lula e do PT. Mesmo se compararmos com 1964, a divisão na sociedade brasileira hoje é maior do que era. Havia uma divisão forte na elite política antes do golpe, mas a sociedade não estava tão envolvida quanto está agora. Não se pode desprezar o fato de que o PT e os partidos de esquerda ainda têm base popular e o sinal que vem desses setores organizados é de apoio ao ex-presidente Lula. Entendo sua nomeação como uma resposta a essas vozes que embora minoritárias no momento, ainda têm força.