A crise econômica brasileira foi a primeira manifestação de que algo não vinha bem. No começo, era um assunto isolado que tomou grandes proporções com o passar dos últimos anos. Ganhou espaço e mais atenção da sociedade e da imprensa.

Jamais se imaginaria que a crise econômica engendrasse um filho chamado ‘crise política’ que se criou e se educou. A causa gerou um efeito e esse efeito se voltou para a causa. Misturadas, devido à situação confusa a que o Brasil foi submetido, é possível chegar àquela famosa pergunta: quem é o criador e quem é a criatura?

Não tendo como separar esses dois ingredientes, o tempo foi correndo: ora benfeitor, ora algoz.

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Dilma ficou num beco estreito e com saída única. Era preciso reagir. Sua reação veio tarde: talvez por relutância, talvez por se trancar todos os dias em seu gabinete, aguardando apenas a sucessão dos acontecimentos. Se agisse, temeria a precipitação de uma decisão equivocada. Preferiu não agir. Criador e criatura tomaram espaço: usinas açucareiras fechando, construção civil com produtividade baixa, inflação disparando e um Congresso rebelado e conservador em sua maioria.

Aparece a figura de Eduardo Cunha, presidente da Câmara a partir do ano passado. Proclamando-se oposição a Dilma, faz o papel do inviabilizador dos projetos do Governo, coloca em pauta projetos polêmicos. Fez, como se diz na gíria, a votação “mequetrefe” da Reforma Política, enterrando-a de vez.

Enquanto Dilma se sentava na cadeira e observava, Cunha atuava: retardava processos contra ele no Conselho de Ética, intimidava adversários, era o seu próprio porta-voz perante as câmeras.

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Se o Brasil tivesse um regime parlamentarista, o choque de ideias e de intenções de Dilma (como presidente) e Cunha (eventualmente como primeiro-ministro) seria inevitável e inacreditável.

A decisão dos deputados federais em aprovar o afastamento de Dilma Rousseff coroou um desejo de partes da população, mas quem foi coroado no dia 17 de abril foi Eduardo Cunha: um profundo conhecedor do Regimento da Casa Legislativa e trabalhando nos bastidores. Um grande incentivador do salto do PMDB para fora do barco do Governo.

Dilma emudeceu demasiadamente; quando quis falar e mostrar sua versão, o tempo (novamente) fez-lhe mostrar uma oportunidade não aproveitada.

Dilma será afastada pelo Senado. Mas, quem imaginava que ela sairia, foi pego no contrapé com a decisão do Ministro do STF, Teori Zavascki, em afastar Eduardo Cunha por “tentar obstruir as investigações da Lava-Jato”.  Enclausurado em seu feudo, sem as prerrogativas de deputado e de presidente da Câmara, Cunha fez do telefone o seu maior aliado.

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Ele não se sente morto, só parcialmente derrotado. De acordo com a Deputada Jandira Feghali em entrevista na TV, Cunha “ainda tem força”. Respira. Prontificou-se de imediato a ajudar o companheiro de partido e Vice-Presidente Michel Temer a não travar ou colocar obstáculos em seus projetos e propostas de leis. Em troca, pede para que Temer não interfira ou influencie na eleição de Presidente da Câmara no ano que vem.

É possível sim que se imagine a sutileza (proposital ou não) de que antes de Dilma, Cunha foi expulso do poder em Brasília.  Mas há outra sutileza da qual há rumores de que Michel Temer tenha trabalhado pela queda de Eduardo Cunha. O medo do futuro provável presidente seria de que Cunha é a personificação de uma figura sem controle. É inédito na história política que uma comissão de deputados tenha que ser formada para discutir o que vale e o que não vale quanto aos benefícios e recebimentos que, por ora, Cunha recebe.

Se passarmos o intrincado mecanismo político para um tabuleiro de xadrez, podemos comparar que Dilma aguarda o xeque-mate da rainha adversária (papel do Senado), Cunha recebeu o xeque das torres e Temer, enquanto articula um novo ministério, está entrincheirado atrás dos peões, correndo o risco de levar um xeque-mate de um bispo ou de um cavalo, caso seu governo não demonstre sair do atoleiro em que o país foi mergulhado. #Opinião #Dentro da política #Crise-de-governo