O Brasil ainda vive os efeitos colaterais do seu segundo #Impeachment desde que a democracia voltou a vigorar. Para entender melhor o cenário político brasileiro, a Blasting News conversou com Leandro Piquet, cientista político e professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo. 

Blasting News: Sem entrar no mérito do "golpe" ou do "não-golpe", mas focando nas denúncias que para muitos eram frágeis da acusação do impeachment, você não teme que a partir de agora o impedimento vire um "instrumento" da atuação das oposições no Brasil?

#leandro piquet: A grande questão até 2018 é a crise econômica. O país não está dividido sobre a questão do afastamento da presidente Dilma.

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A rejeição ao governo anterior e ao PT é generalizada na sociedade. É verdade que há alguns setores que estão radicalizados nas suas críticas ao impeachment, mas são pouco expressivos politicamente e estão isolados, embora tenham voz e influência nos grupos de maior renda e escolaridade. Isso cria uma ilusão de que a sociedade está profundamente dividida e com posições polarizadas. Não acho que é isso que está ocorrendo. O desemprego, a falta de investimento e a crise fiscal são os assuntos que efetivamente afetam a vida de todos e mobilizam as energias políticas do país. Nas universidades e nos palcos estamos vivendo um drama que não é o mesmo que os governadores, deputados e sindicalistas do PT estão encenando. Os governadores do PT tentam ajustar suas contas e sobreviver em meio à crise, a bancada do partido votou no Rodrigo Maia do DEM para a presidência da Câmara e os sindicalistas tentam garantir um mínimo para suas bases empobrecidas e ameaçadas pelo desemprego.

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O PT está desempenhando seu papel de oposição parlamentar e, por outro lado, o centro político do país está se reorganizando sob a liderança do novo governo. Não vejo, nesse cenário, muitas possibilidades de sucesso para o discurso da oposição radical ao governo Temer. A crise econômica pode derrotá-lo, já os manifestos dos artistas e intelectuais são como as touradas portuguesas, chateiam o touro, mas não o matam.

BN: Na sua avaliação, diante do cenário atual, qual era a melhor saída para o Brasil: o retorno de Dilma Rousseff à presidência com sua absolvição no impeachment, a consolidação do mandato de Michel Temer até 2018 ou a antecipação das eleições presidenciais?

LP: O impeachment foi uma solução constitucional legítima, politicamente construída e que teve o apoio da maioria da população. As alternativas mencionadas produziriam instabilidade, crise política e exigiriam mudanças constitucionais que simplesmente não tinham a menor probabilidade de acontecer.

BN: Temer, ao que tudo indica, governará com maioria no Congresso Nacional.

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Chegou o momento das grandes reformas?

LP: Não há nada que favoreça a aprovação das reformas que o Brasil tanto precisa. A maioria no Congresso não está garantida e depende da divisão dos cargos do poder executivo entre os partidos da nova coalizão governista. Tudo terá que ser negociado e o presidente tem a desvantagem de não ter sido eleito para o cargo diretamente. No presidencialismo, a força do presidente decorre principalmente da vitória na eleição majoritária. A vantagem é que Temer parece muito consciente de que não tem a força e a legitimidade de um presidente eleito e negocia de forma hábil no Congresso o apoio que precisa. No Brasil temos uma combinação muito particular de sistema eleitoral proporcional, distritos eleitorais imensos e a possibilidade de formar coligações eleitorais com transferência de voto em lista aberta, o que produz um sistema multipartidário fragmentado de difícil gestão. A consequência é que o poder político no Brasil é disperso, dividido entre várias forças partidárias e sujeito a múltiplos pontos de veto. Nenhum presidente faz nada sozinho. O primeiro gabinete ministerial de Temer é parlamentar, indicado e negociado com os partidos da base, e isso limitará drasticamente o alcance das reformas. #entrevista