Rivais na disputada eleição presidencial de 2014, #Dilma Rousseff e Aécio Neves protagonizaram uma das cenas mais emblemáticas de todo o processo de #Impeachment, que veio a destituir a petista do cargo de presidente da República. Um dia antes da votação decisiva no Senado Federal, os dois, acompanhados do advogado de defesa José Eduardo Cardozo e do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, conversaram de forma amistosa e sorridentes em um dos intervalos da sessão que recebia o depoimento de Dilma.

As fotos do encontro ganharam rapidamente as redes sociais e chamaram a atenção do público por colocarem, frente a frente, dois dos principais adversários políticos do momento brasileiro.

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A demonstração de civilidade escondia as próprias críticas do PT, partido de Dilma, que apontava o PSDB, sigla presidida por Aécio Neves, como um dos principais fiadores do processo de impeachment. O senador Antonio Anastasia, do PSDB de Minas Gerais, por exemplo, foi o autor do parecer favorável à admissibilidade do processo na Comissão Especial no Senado Federal.

A cena foi apontada pelo cientista político Leandro Piquet como o momento mais marcante dentre todas as etapas do demorado processo de impeachment, que levou praticamente nove meses desde a sua abertura para ser concluído. Em #entrevista exclusiva à Blasting News Brasil, Piquet avaliou que, na América Latina, apenas o Brasil é capaz de proporcionar uma situação como essa.

"O que mais me marcou foi a foto de Dilma, Aécio, Lewandowski e o ex ministro José Eduardo Cardozo conversando civilizadamente no Senado um dia antes da votação do impeachment.

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Em que outro país da América Latina isso seria possível?", indaga Piquet.

Em seguida, o analista, que também é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), compara o quadro político brasileiro com países vizinhos, utilizando como pano de fundo o encontro amigável de Dilma Rousseff e Aécio Neves.

"Alguém imagina o presidente Maduro da Venezuela trocando cumprimentos no Congresso com os oposicionistas Jesus Torrealba e Leopoldo Lopez? Macri e Cristina Kirchner não se encontraram nem para trocar a faixa presidencial no dia da posse na Argentina. No Equador e na Bolívia a história é a mesma, com conflitos e divisões violentas. A Colômbia enfrenta uma guerra civil de 50 anos", contextualiza o cientista.

O diálogo por trás da foto

Ao causar surpresa por ser um dos protagonistas do improvável encontro, Aécio Neves explicou o teor da conversa com Dilma aos meios de comunicação. Segundo ele, o seu objetivo era apenas desejar força e paz à petista. "Desejo à senhora paz e muita força nesse momento", disse o tucano.

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Ao lado, o ministro do STF, Ricardo Lewandowski, brincou: "E não é que na política até inimizades são inventadas?".

Para Piquet, a conversa apenas foi possível pela maneira como o sistema político brasileiro é conduzido, de maneira bem diferente de outros países da América Latina. O processo de impeachment, para ele, mostrou que a "arquitetura institucional" do país ainda é muito pouco apreciada.

"O Brasil é diferente, não porque somos cordiais, mas porque temos instituições diferentes. Nossa arquitetura institucional é, no entanto, ainda muito pouco apreciada. Mesmo agora, nessa crise, quando se provou ser bastante eficiente. O impeachment foi, na minha visão, o ato final de um processo longamente negociado no âmago de um sistema político que pode ser definido como um eficaz construtor de consensos, um pacificador", conclui Piquet.