Como explicar a eleição de tantos religiosos para legislar e cuidar da cidade? É possível um fiel de uma determinada igreja, que também é um eleitor, pensar para além do voto no líder religioso? Logo após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anunciar o resultado das eleições para a Prefeitura de #Manaus, a surpresa não foi a confirmação de que haveria segundo turno, mas sim a divulgação do nome de um desconhecido vereador como sendo o mais votado para a câmara municipal. Como em nenhuma pesquisa de intensão de voto aparecia o nome do candidato, qual não foi a surpresa quando as urnas confirmaram uma votação expressiva para João Luiz (PRB)?

Em seguida, perguntas como “Quem é ele?”, “De onde ele vem?”, “O que ele faz?”, foram feitas em rádios, programas de televisão e compartilhadas nas redes sociais, aos montes, e logo chamou a atenção de analistas sociais e políticos, que começaram a debater o resultado da eleição e das pesquisas, apontando erros, formulando teses, explicações, algumas bizarras, todas, enfim, sem tocar na causa principal: a relação entre religião e #Política.

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Religião vem do verbo latino religare, que significa ligar o homem a um ser divino, como, por exemplo, Deus, para os cristãos. Segundo o dicionário Aurélio, pode ser também um conjunto de princípios, crenças e práticas de doutrinas religiosas baseadas em livros sagrados, que unem seus seguidores numa mesma comunidade moral, chamada Igreja. Já política, segundo Aristóteles, é uma ciência humana, relacionada a ética, e que se preocupa, principalmente, com a felicidade coletiva. Como conciliar, então, religião e política? Como explicar o caso João Luiz?

Saber que religião e política são duas ciências independentes, com métodos, objetivos, linguagens e procedimentos distintos, é fundamental para entender o caso João Luiz. Sendo ele pastor da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), homem de comunicação fácil, apesar de não ter nem concluído o Ensino Fundamental II, usou o discurso maniqueísta, que identifica o bem e o mal, para fazer os fiéis crerem que apenas ele reunia as condições para ser votado.

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Mas será que isso é mesmo possível? É óbvio que não.

Ser político é exercer um direito além do voto, é estar presente nos problemas da sociedade em que vivemos. Precisamos acabar com expressões e atitudes sectárias de que uma religião, uma entidade, uma categoria, uma classe, um partido político, representa o todo ou a todos. Não! A política não se restringe (e nem deve!) a homens, muito menos religiosos, formados ou não, afinal, a política é para todos, homens e mulheres, de terno ou de chinelo, crente ou ateu. Precisamos aprender a ser plurais. Precisamos aprender a pensar que aquilo que uma geração acredita ser verdade, a geração seguinte acredita ser falso. Por exemplo, o racionalismo fora verdade para uma época, mas para o romantismo da idade subsequente passou a ser falso. O cientificismo da época subsequente recusou-se a aceitar o romantismo e, nos nossos dias, o senso comum repudia o cientificismo.

Enfim, existe um termo em filosofia que se chama zeitgeist, isto é, um “espírito da época”, variando com o tempo e manifestando-se em todos os povos, culturas e na mente humana, que pode nos ajudar na compreensão do caso João Luiz.

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Ou seja, o espírito de uma época não se encontra jamais claramente separada de outra, pois a história não é rígida em suas divisões, segundo afirma o historiador Eric Hobsbawm, em seu aclamado livro Era dos Extremos: a fronteira de uma era tangência a de outra e às vezes prolonga-se através da era subsequente. Portanto, pode-se compreender (não aceitar!), a escolha do candidato João Luiz para a câmara municipal de Manaus como sendo um “espírito da época”, só que, nesse caso, época das trevas, das cavernas, da teocracia. Haverá salvação fora da igreja? #Opinião