Você muito provavelmente já se deparou com algum saudosista do período militar ou com algum jovem que, não tendo vivido naquela época, acredita nas histórias de bonança que lhe foram contadas. Essas narrativas têm sido resgatadas principalmente na ocasião de manifestações como a de ontem, 4 de dezembro, em que algumas pessoas carregavam cartazes pedindo por uma "intervenção militar constitucional". Economicamente falando, houve um rápido crescimento nesse setor, sob intenso controle estatal, um fenômeno que ficou conhecido como "Milagre Econômico".

O aumento do Produto Interno Bruto (PIB) serviu para dar visibilidade e legitimidade ao governo em curso, que havia ascendido ao poder por meio de um golpe, mas esse mesmo modelo econômico foi incapaz de se sustentar por muito tempo, promovendo uma distribuição de renda desigual, com arrocho salarial que, obviamente, afetava diretamente as classes mais baixas, e um intenso controle artificial da inflação e das taxas.

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Foi também um período em que a dívida externa aumentou exponencialmente.

Como o controle da imprensa era também intenso durante o regime, a população tinha acesso apenas à informação positiva, a de que o país estava crescendo economicamente.

Essa mesma restrição imposta aos veículos de comunicação permitiu ainda que as pessoas não soubessem da real dimensão dos atos de #Corrupção e de outras ilegalidades que continuaram a acontecer durante o período em que os militares estiveram no poder, a começar pelo próprio golpe que destituiu o presidente João Goulart, que foi financiado por grandes empresários, os quais se beneficiaram, e muito, de inúmeros favores do governo que então se instituiu.

Casos de corrupção durante o regime militar

No Rio de Janeiro, o Exército se envolveu com o contrabando, escoltando e negociando com os criminosos.

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O capitão Aílton Guimarães Jorge chegou a participar na comercialização de uísques, roupas de grife e perfumes importados, ajudando inclusive nos assaltos a contrabandistas rivais. Presos pelo Serviço Nacional de Informações, os militares foram depois inocentados porque suas confissões foram obtidas através de tortura (uma grande ironia, uma vez que o direito à não violência não existia para a sociedade civil).

A relação notória de militares com esquemas de jogo do bicho foram narradas por Chico Otávio e Aloy Jupiara no livro Os porões da contravenção, publicado em novembro de 2015. Desde então, essa se tornou uma lucrativa vertente do crime organizado e que, hoje, realiza suas negociações com policiais militares corruptos.

Em São Paulo, o famoso e aclamado delegado Sérgio Fleury, que comandou operações de "limpeza" urbana sob a justificativa de prevenção ao crime, teria sido o líder do Esquadrão da Morte e, segundo o Ministério Público, relacionava-se com criminosos e chegou a oferecer proteção a traficantes.

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Por atuar ativamente na repressão, recebeu a Medalha do Pacificador e caiu nas graças do Exército, que deu ordens aos promotores do Ministério para interromper as investigações contra o delegado.

Governadores escolhidos pelos presidentes durante o regime recebiam propina e participavam de esquemas de favorecimento de empresas, como Haroldo Peres, no Paraná, Antônio Carlos Magalhães, o ACM, na Bahia e Paulo Maluf, em São Paulo. Houve também denúncias envolvendo ministros e, já no período de maior abertura, a partir de meados de 1970, casos de gastos do dinheiro público com regalias e mordomias chegaram a ser publicados em jornais. Outro nome que esteve nas páginas dos escândalos sobre corrupção foi o do ministro Delfim Netto, que atuou nos Ministérios do Planejamento e da Fazendo.

A cultura brasileira da dissimulação se reflete não apenas num regime ditatorial que, sob a justificativa de manter a ordem e proteger o país, permitiu que a corrupção acontecesse entre os próprios militares, mas também numa população que decidiu ignorar, voluntariamente, tantos pontos negativos de uma época em que predominou a censura e a perseguição. #Regime Militiar #História