O discurso que mais se ouviu por todo o Brasil, tanto na época das eleições, como após, foi o da política de contenção de gastos. O assunto se tornou pauta de todo cidadão brasileiro com algum senso crítico político, impulsionado, principalmente, pela proposta da PEC241, e esteve na boca de todos os candidatos interessados a ocupar cargos públicos no país. No entanto, o que era promessa de renovação no pensamento político, acabou por se revelar como uma das maiores farsas de nossa história. E nem foi preciso esperar muito tempo para que a teoria caísse por terra. Semanas depois da eleições, os representantes eleitos já se reuniam em congresso, e não para adiantar pautas de interesse social, mas para votar o aumento de seus próprios salários em pelo menos 10%.

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Você, querido leitor, sabe quanto ganha em média um vereador? Bom, o cálculo não é difícil e também não segue parâmetros aleatórios. Ao contrário, tem regras bem definidas, e depende inteiramente do número de habitantes das cidades onde os vereadores exercem os seus mandatos. Por exemplo: em cidades de menor espectro populacional, com até 50 mil habitantes, um vereador pode ganhar até 12 mil reais. Claro que o valor final depende também de um teto, que leva em consideração as rendas de outros políticos como deputados e prefeitos. O vereador não pode ganhar acima daqueles que estão em posições mais elevadas na hierarquia política. No entanto, mesmo que ganhe abaixo de outros ocupantes de cargos políticos, os salários de vereadores são considerados altos, quando comparados com o ganho médio do brasileiro, ainda mais em época de crise, quando as propostas de aumento fogem completamente ao discurso de rigidez fiscal.

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Em São Paulo, a discussão sobre o aumento girava em torno dos 26%, valor considerado acima da inflação. Mas a investida parlamentar acabou barrada graças à manifestação popular, acatada pelo juiz Muñoz, seguindo o argumento de que o aumento seria institucional por ser "nulo de pleno direito o ato de que resulte aumento da despesa com pessoal expedido nos 180 dias anteriores ao final do mandato do titular do respectivo Poder". Já em Belo Horizonte, o aumento era de 9,82%. Neste caso, embora o povo demonstrasse indignação em redes sociais e nas ruas, o aumento acabou sancionado por Lacerda, medida considerada absurda num estado em que não há dinheiro em caixa para pagamento de funcionários públicos, e que tem sido obrigado a parcelar ordenados para evitar o crescimento da dívida, considerada impagável por especialistas da área de economia.

A situação fica ainda mais insustentável, quando levamos em consideração não só o salário em folha de vereadores, mas os gastos com gabinete, que em alguns casos, chega a casa dos 100 mil, somando despesas com funcionários, além de privilégios, como valores para compra de ternos, aluguéis de casa e pagamento com educação para os próprios filhos.

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E fica a impressão de que a política de contenção continuará mesmo é no papel, e quem deverá pagar o grosso da conta deixada pela má administração de governos, será o personagem mais injustiçado de toda essa tragédia: O povo.

No entanto, são inúmeros os exemplos de mobilização popular que acabaram por surtir algum efeito positivo, demonstrando que, talvez, nem tudo esteja perdido. O mais famoso desses exemplos, ocorreu em julho deste ano, quando a comerciante Adriana irrompeu aos berros em plena sessão da câmera de vereadores, em Santo Antônio da Platina, pequeno município localizado no estado do Paraná. E qual era a pauta? Aumento de salários. Apenas impedido pelo gesto de Adriana, que passou da indignação para a ação, e provocou todo um movimento de revolta popular contra a falsa rigidez fiscal dos congressistas. Gesto que nos mostra que a esperança de solução do Brasil, não está na classe política, mas no próprio povo. Não numa democracia representativa, mas numa democracia participativa. Mas esse já é assunto para um outro artigo. #Aumentosalarialabsurdo #Vereadoresnãoeconomizamparaocafé