Há muito se tem falado na polarização política do Brasil entre os tucanos, que ocuparam a presidência da República entre 1995 e 2002, e os petistas, que ocuparam a presidência entre 2003 e o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff no ano passado. Desde as eleições presidenciais de 1994, os dois partidos, PT e PSDB, cada um com seus respectivos aliados, são os únicos a apresentaremcandidaturas viáveis à presidência, dividindo entre si o primeiro e o segundo lugar em todos os pleitos presidenciais desde então. Essa situação pode estar chegando ao fim.

Com suas reputações abaladas pelas recentes revelações de delatores da Operação Lava Jato, os mais prováveis candidatos tucanos, Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra, caíram nas pesquisas de opinião.

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Fosse hoje a eleição, nenhum deles conseguiria chegar ao segundo turno. Não quer dizer, porém, que a polarização entre esquerda e direita, que têm sido causa de tantas discussões acaloradas, dê sinal de arrefecer. Pelo contrário: as pesquisas de intenção de voto mais recentes mostram a ascensão do deputado Jair #bolsonaro, membro do PSC. O polêmico oficial da reserva do Exército, apologista do regime instalado no Brasil pelo golpe de 1964, já está em segundo lugar, empatado com Marina Silva (Rede), e tem rejeição relativamente baixa. A liderança ainda é ocupada pelo ex-presidente Luiz Inácio #Lula da Silva, ícone do PT, que, no entanto, tem seu potencial eleitoral limitado por uma enorme rejeição, pelo menos em parte, causada pelas denúncias de corrupção que o têm atormentado. A polarização não é só ideológica, porém.

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Ela também é socioeconômica, pois os eleitores típicos de Lula e Bolsonaro têm características bem diferentes.

As mulheres são a maioria dos eleitores de Lula, já o deputado tem entre os homens seu melhor resultado. Um terço das pessoas que pretendem votar em Bolsonaro tem menos de 24 anos, enquanto Lula tem duas vezes mais intenções de voto entre os idosos do que o controvertido deputado. Enquanto os eleitores de Bolsonaro concentram-se na região Sudeste, Lula é mais forte no Nordeste. Enquanto as pessoas que dizem pretender votar em Lula tendem a se identificar com partidos políticos, por exemplo, o Partido dos Trabalhadores, os eleitores de Bolsonaro não confiam em partidos e importam-se mais com os candidatos. No campo econômico, mais da metade das pessoas que afirmam pretender votar em Lula vivem em famílias com renda total inferior a R$ 1.874,00. A proporção de eleitores de Bolsonaro nessa faixa de renda é duas vezes menor.

Cláudio Gonçalves Couto, cientista político ligado à Fundação Getúlio Vargas, acredita que surgem, claros, dois perfis de eleitor com potencial de protagonismos nas eleições marcadas para o próximo ano: os lulistas, que mesmo que não sejam petistas, consideram-se beneficiados pelas políticas adotadas por Lula em seus dois mandatos presidenciais, e uma fatia mais à direita, que, até recente ascensão de Bolsonaro, votava em candidatos do PSDB.

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Os (potenciais) candidatos desses dois tipos de eleitores, Bolsonaro e Lula, têm investido em declarações fortes e polarizantes. Nessa situação, Marina Silva, que deseja angariar votos como uma via intermediária entre a esquerda e a direita, pode acabar perdendo espaço à medida que o processo de radicalização do eleitorado avança a passos largos. #Eleições 2018