O ano era 1920 e o mundo vivia momentos cruciais. A primeira guerra chegara ao final, o comunismo se instalara na União Soviética, a bolsa de Nova Iorque mostrava a fragilidade do sistema financeiro quebrando a economia norte-americana, que instituía a Lei Seca. Ghandi lançava na Índia as bases da sua revolução pacífica, buscando a independência da então colônia inglesa, Hitler começava sua escalada para o poder na Alemanha e o Brasil recebia a sua primeira montadora de automóveis, a Ford que, com 12 funcionários colocava prontos, à venda, os famosos Ford T, que aqui seriam conhecidos como Ford Bigode.

Em termos culturais o Brasil passava por uma efervescência que veio a culminar na Semana de 22.

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Era a busca de uma identidade própria, em um momento que o mundo todo se refazia e se recriava.

No Recife, porta de entrada do país para a Europa, as influências do que acontecia no exterior eram fortes, mas não o suficiente para tirar o ânimo dos foliões no carnaval.

E foi nesse contexto de carência de paz, tranquilidade e relaxamento que todos viviam, que o Bloco das Flores foi criado.

O autor do feito foi o português Pedro Salgado, morador do Recife desde o fim do século XIX e empresário da hotelaria. Conterrâneo, pois, do Zé Pereira, o "pai" do carnaval brasileiro.

O carnaval recifense já era palco do frevo com suas violentas e enérgicas manifestações com passos largos, pernadas e braçadas dadas ao melhor estilo "sai da frente que vou passar", e nesse espaço as mulheres não tinham muito espaço para brincar sem correr sérios riscos de saírem machucadas.

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Elas brincavam dentro de cordões de isolamento nos blocos de carnaval, mas tudo era muito forte. Veio então a ideia de se criar um carnaval onde as músicas não estimulassem tamanha energia dos foliões. Os integrantes eram as mesmas pessoas que embelezavam as festas de fim de ano nos pastoris que homenageavam o nascimento do Menino Jesus. As mulheres cantavam, e os homens, em orquestras de pau de corda se encarregavam da música. Veio daí o frevo-de-bloco e o bloco lírico, onde as mulheres podiam se divertir com segurança. Veja mais sobre o Frevo na Parte 1 e na Parte 2.

Os foliões que puseram em prática essa nova manifestação carnavalesca são cantados hoje em versos eternizados na música Evocação (ouça no arquivo de Áudio em anexo) de Nelson Ferreira. São eles: Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon e Raul Moraes.

O primeiro bloco foi o Bloco das Flores Brancas, alterado posteriormente com a retirada do "brancas". O Bloco das Flores seguiu em folia até o ano de 1937, quando ocorreu o falecimento de seus principais mantenedores: Pedro Salgado e Raul Moraes, este que cuidava da parte musical compondo e arranjando as músicas e regendo a orquestra.

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O bloco ficou inativo por muitas décadas, até que em 2000, início de outro século, outro milênio, inquietações e necessidades culturais fizeram que o Bloco ressurgisse, saindo de um descanso de 63 anos.

Hoje o Bloco das Flores segue com galhardia no carnaval pernambucano, e carrega a responsabilidade de ser o mais antigo bloco lírico do Recife.

Muitos blocos contemporâneos do quase centenário Bloco das Flores estão inativos como os Pirilampos, Apois Fum, Se tem... Bote, Andaluzas e outros tantos, mas fazem parte dos carnavais até hoje, sendo homenageados em todas as festas e desfiles através das letras dos frevos-de-bloco imortalizados e cantados por todos os cantores que fazem o carnaval pernambucano, especialmente Valores do Passado, de Edgar Moraes, irmão de Raul. #História