“É de praxe que ao ser parte da plateia de um espetáculo teatral, você apenas se sente em seu lugar, aguardando o que quer que o elenco e o diretor tenham preparado para entretê-lo ou mostrá-lo. E chega a ser curioso que, quando se entra no teatro, é possível ouvir em alto e bom tom todas as dificuldades passadas pelo elenco, ditas pelos próprios atores. A vida é dura, mas traz os seus presentes”.

Cruel foi a quarta apresentação realizada pela Oficinal Social de Teatro em sua 2º Mostra de Verão OST, realizada no dia 03 de março. Finalizando a esta primeira parte da cobertura, que se conclui com as apresentações “Fragmentos do Real” no próximo dia 9; e “A Noite Pestilenta”, no dia 13 de abril.

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Dirigida por Amaury Lorenzo, “Cruel” trouxe uma abordagem ainda mais visceral e forte em comparação ao seu outro espetáculo, “O Despertar da Primavera”. Com alguns dos textos de Plínio Marcos, o “escritor maldito”, o público foi surpreendido desde o momento que entraram no teatro Eduardo Kraichete, com os depoimentos sinceros (e verdadeiros) do elenco, até as situações mais comicamente chocantes, que fazem parte do estilo de Plínio Marcos.

Tirando o chão do público

“Em uma voz estridente e levemente desafinada de uma jovem, os Sonhos de Caetano Veloso eram cantados em uma cena triste sobre o abandono de quem um dia quis amar e simplesmente deixou tudo para trás. Ao término da canção sem instrumentos, os aplausos vieram quase que instantâneos. E o público, aturdido, mal percebia que o elenco os observava em revolta, respondendo da maneira mais teatral possível: 'TÃO APLAUDINDO PORQUE?! EU HEIN!”

Cruel chamou atenção pela maneira intensa com que foi mostrada cada situação retratada em suas cenas.

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A sexualidade poderia ser o principal fator, explícito ou implícito, mas na verdade os Relacionamentos são o verdadeiro mote. Dos gostos execráveis de um cafetão para com sua esposa e cunhada, ao fim de um namoro cuja diferença de idade se tornou um infortúnio, o peso da realidade das situações em Cruel não era leviana.

Contribui para esta crueza o minimalismo em palco. Além dos figurinos que exploravam a sensualidade do elenco, a música ora cantada pelo elenco ora como pano de fundo, a falta de elementos cenográficos, e a iluminação que brincava com a presença dos atores em palco, transformaram toda a peça em algo ainda mais especial.

Saindo do fundo do poço

“No final do espetáculo, o cortiço que desacortinava um lado que muitos se negam a enxergar, mas que tem seus adoradores obscuros traziam uma sensibilidade perdida em tanta sujeira velada. O que os personagens mostravam ao público é que nem todos estavam naquele mundo terrível por quererem. E independente do motivo, a tristeza oculta davam os seus sinais de que é possível mudar.”

Cruel poderia ser facilmente um retrato de uma realidade ao mesmo tempo comum e trágica.

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Mas ao final dele, no verdadeiro final, se transforma em relatos de pessoas que poderiam ser muito mais próximas de nós. E ao público que conseguiu captar estas nuances, é possível mostrar a estes personagens que, mesmo a sociedade cruel que se mostra a quem está no fundo poço, há um luz de esperança a se seguir. Longínqua, mas alcançável. #Entretenimento #Rio Cultura