O que podem ter em comum um jovem carioca que vai para o trabalho de ônibus e uma jornalista de um grande veículo de comunicação? Eles foram vítimas de "gordofobia", uma palavra que nem existe nos dicionários, mas que muitas pessoas sentem na pele. E nem pense que são exceções ou casos esporádicos. Os dois personagens reais dessa matéria sofreram preconceito no mesmo dia e na mesma cidade: Rio de Janeiro, 7 de junho de 2016.

O psicólogo Roberto Nobre explica os motivos do preconceito. "A indústria do consumo sempre passou a ideia de que ser gordo é feio e inadequado. Hoje existe uma falsa crença de que ser gordo é uma doença, mas muitas pessoas tem todos os exames normais.

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É uma cultura instaurada: ser gordo é ruim e gordos são feios ou cômicos", explica. 

Discriminação no transporte público

Um dos casos mais tristes aconteceu no período da manhã. O carioca Leonardo Alves foi publicamente constrangido em um ônibus a caminho do trabalho. Devido ao seu tamanho, Leonardo não consegue passar pelas catracas dos veículos. Por isso, sempre pede para utilizar a entrada para deficientes físicos ou entrar pela porta de saída. Desta vez, entretanto, Leonardo teve o azar de precisar negociar sua entrada com uma cobradora totalmente despreparada para lidar com a situação. Ao pedir para entrar pela outra porta, que não tem catraca, a cobradora disse que era proibido. Leonardo argumentou, já envergonhado, que não consegue passar pela catraca. A cobradora rispidamente respondeu "vai ter de passar".

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Mesmo após Leonardo explicar a situação e se oferecer para pagar primeiro e entrar depois, a cobradora decidiu humilhá-lo ainda mais. Gritou, do fundo do ônibus, para o motorista: "o cara gordo não consegue passar, libera aí que hoje estou sem paciência". 

A partir daí, o relato de Leonardo é de partir o coração: "quando entrei pela frente todos estavam me olhando. Morri de vergonha, estou até agora passando mal, com a pressão alta e muito constrangido. O que leva uma pessoa a tratar alguém tão mal, sendo eu tão educado com todos? A vergonha que eu senti naquele momento me fez querer me jogar de um viaduto", desabafou em seu perfil no Facebook. 

Leonardo está tentando fazer uma cirurgia bariátrica mas, como não tem plano de saúde, ainda não conseguiu. Veja seu desabafo:

Jornalista interrompe transmissão ao vivo após ser chamada de gorda

O outro caso foi a da jornalista Samanta Vicentini. Ela estava trabalhando como faz todos os dias. Ontem, a pauta era uma entrevista com transmissão ao vivo pelo Facebook. Os seguidores do jornal poderiam enviar perguntas e fazer comentários.

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Tudo ia bem até que Samanta percebeu que um dos comentários era, na verdade, uma ofensa. "Que gordona", escreveu o internauta Rafael Montiverdi. Samanta tentou ignorar, mas o agressor continuou: "Que gorda, que leitoa". Foi a gota d´água. Samanta interrompeu a entrevista e disparou para a câmera: "Gordo não é ofensa. Isso aqui é só embalagem. Falta de caráter é pior do que gordura". O Extra bloqueou o perfil de Rafael Montiverdi. Vários outros internautas mandaram mensagens de apoio e carinho.

Os episódios revelam que o preconceito existe, mas também mostram que muitas pessoas se opõem aos preconceituosos. A esperança do psicólogo Roberto Nobre é de que esse seja o início da desconstrução dos padrões rígidos de beleza vigentes. "Cada vez mais vemos campanhas publicitárias com gordinhos, a exemplo da campanha da Dove. Vemos também eventos de moda com roupas maiores, fotos com modelos de maior peso corporal. Isso certamente vai ajudar a sociedade a ver o diferente como uma coisa normal", diz. #Casos de polícia