Andar pelo bairro da Liberdade remete a uma viagem por paisagens e pela cultura japonesa, em meio aquele burburinho de paulistanos de todas as matizes, turistas e uma avalanche de serviços, como restaurantes e lojas das mais variadas. Poucas pessoas sabem porque aquele bairro curioso e encantador se chama Liberdade. A origem do nome não tem nada a ver com os imigrantes que adotaram aquela região como seu segundo lar, mas com a raça negra e que lá, mais especificamente no quarteirão das esquinas da rua Galvão Bueno, dos Estudantes, funcionou o primeiro cemitério de São Paulo.

Sabe-se que nos séculos passados, os ricos e poderosos eram enterrados nas igrejas, mas e os pobres, indigentes e, nesse caso, os escravos? Pois é, para resolver esse problema, foi fundado em 1774 o primeiro cemitério de São Paulo, que funcionava na região que seria conhecida como Liberdade.

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Mais adiante, onde hoje existe a Praça da Liberdade e encontra-se uma das entradas da Estação Liberdade do Metrô, tinha uma forca onde eram mortos os escravos fugitivos. Ali, certa ocasião, entre diversos enforcamentos que ocorreram, foi levado à forca, o soldado negro Francisco José das Chagas, o 'Chaguinha', que foi condenado por liderar uma rebelião por pagamento de soldo. Antes de ser executado, ficou na Capela dos Aflitos - que existe até hoje em uma pequena travessa da Rua dos Estudantes -, e ao chegar na forca, a corda rompeu duas vezes. Então, as pessoas que assistiam a execução atribuíram tal fato a um milagre e gritaram 'liberdade', que deu origem ao bairro. Apesar do clamor popular, mesmo assim Chaguinha foi morto. O carrasco tomou emprestado um laço de um vaqueiro e consumou a execução.

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Desde então, Chaguinha se tornou uma espécie de santo padroeiro do bairro e uma espécie de anjo protetor na Capela dos Aflitos e também na Igreja Santa Cruz dos Enforcados, onde se encontra, em seu interior, uma cruz que era do antigo cemitério.

Com a inauguração do cemitério da Consolação, em 1858, parte dos corpos que estavam enterrados foram transferidos para o novo cemitério e outros ali ficaram. Em 1880, a Mitra Arquidiocesana adquiriu o terreno do antigo cemitério para loteamento e venda, ficando responsável apenas pela pequena Capela dos Aflitos, que até hoje permanece no local, necessitando urgentemente de reformas. Segundo a Arquidiocese de São Paulo, a capela está repleta de cupins nas portas e nos forros, além da sua estrutura estar bem precária. Vale lembrar que a capela, há quinze anos, sofreu um incêndio que foi responsável pela destruição de parte das talhas barrocas de seus oratórios. Nesse aspecto, seria fundamental que o Poder Público Municipal ajudasse a preservar essa faceta curiosa do bairro, cujas ruas estão impregnadas de uma fase importante da nossa #História.