Maria das Dores tem quarenta e seis anos e há dois sofre com uma hemorragia. Uma mulher forte e ativa, hoje está desanimada e fraca. Maria conta que seu sangramento é tão intenso que não usa mais absorventes, mas sim fraldas. Maria tem um mioma e só com a remoção do mesmo o sangramento poderá cessar.

Em abril de 2014 foi constatado através de exames que Maria estava com anemia, devido à perda constante de sangue. O quadro atual não está muito diferente, já que Maria passa a maior parte do seu tempo deitada, levantando-se apenas para comer e de vez em quando ir à UBS (Unidade Básica de Saúde) na esperança de conseguir uma consulta com um cirurgião.

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Quando retorna da UBS, seu cansaço físico e emocional é ainda maior, pois recebe a mesma resposta dos profissionais da unidade: "Não há cirurgião e seu nome está na fila." Além do desânimo, Maria corre o risco do sangramento atrapalhar o seu trajeto de volta por conta de um vazamento. O caso de dona Maria é o de muitos brasileiros que dependem, exclusivamente, do sistema público de saúde, vivendo o descaso da falta de estrutura e de profissionais para atendimento.

Suas consultas têm servido como forma de desabafar com a médica, pois não há, segundo a unidade, possibilidade de marcar sua consulta com um cirurgião devido à ausência desse profissional. A médica lamenta a situação, indica a cirurgia como solução, receita o medicamento Cerazette, mas não pode fazer mais nada além disso, pois não depende mais da mesma o sucesso do tratamento.

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O medicamento receitado deixou de fazer efeito e não contém mais o sangramento de Maria.

Maria trabalhava com a sobrinha em um salão de beleza, mas devido o agravamento de seu problema, não pode mais, ficando apenas na cama. Maria tem três filhos e o mais novo, de dezenove anos mora com ela e o marido. Desempregado, o marido também tem lamentado a situação de descaso que a esposa tem vivido nos dois últimos anos.

No início de março ela foi procurada pelo posto de saúde, o que a deixou feliz e esperançosa, mas ao chegar na unidade, viu que se tratava de pedidos para novos exames.

A UBS e a Secretaria de Saúde do Município e do Estado alegam que prestaram o atendimento correto à paciente. Eles alegam que a mesma passou por uma curetagem, onde foi constatado um aborto espontâneo. Maria, por sua vez, afirma ser impossível, pois fez laqueadura quando seu filho mais novo nasceu.

Uma médica de clínica particular disse que será necessário a retirada do útero, mas essa cirurgia custa R$7.200, valor que a família humilde da periferia paulista não dispõe para pagar.

Entre as defesas do sistema público de saúde e o desespero de Maria, apenas uma coisa é certa: seu sangramento continua e ela precisa de ajuda.