O cheiro no ar parecia uma mistura de cimento raspado, mofo e calças sujas. No antigo saguão, as duas bilheterias laterais, uma de cada lado, já denunciavam a intenção do lugar. Nas paredes e no teto, molduras que lembravam uma arquitetura de médio-oriente e espelhos, com bordas que pareciam ser cor de ouro, indicavam a decoração livremente inspirada em Mil e Uma Noites. A obra de Muhsin Mahdi deu a intenção de luxo e mistério árabe ao #Cinema, que inaugurado em 1952, abria suas portas a quase 1870 pessoas todas as tardes e noites. O peso da história ali, em cima de meus ombros, me dizia “Bem-vinda ao Cine Marrocos”.

Era uma quinta-feira, por volta das cinco da tarde, quando passei, mais uma vez, como todos os dias, pela frente do edifício Marrocos, agora desocupado de seus moradores refugiados (de outros países ou de suas tristes realidades) por aparatados e forças municipais.

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A Guarda Civil Metropolitana estava na porta com seus policiais armados de toda ignorância com relação à história do lugar que protegiam. Abordei um deles e pedi permissão para que entrasse no prédio, ele recusou. Insisti, até que um de seus colegas decidiu me ajudar, “Deixa ela entrar. Mas não pode tirar foto, viu moça.”. Claro, sim, senhor. E o outro, então, me acompanhou.

Os vestígios da ocupação clandestina eram visíveis, cacos de vidro pelo chão, paredes agredidas, azulejos e pisos quebrados. Pedaços de tecido, uma televisão 14 polegadas de tubo, entre outros eletrodomésticos também quebrados lembravam que pessoas estiveram ali há pouco tempo, contando uma história, não de luxo e riqueza, mas de pobre tristeza. Ali, recentemente, as mil e uma noites foram de terror.

Ainda no saguão de entrada, uma foto em quadro na parede mostrava a presença honrosa de uma fonte de água ao centro do espaço.

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Cadê a fonte? “Os caras destruíram, com certeza”, respondeu meu acompanhante policial. As escadas à direita (ou seus restos) pareciam de mármore e faziam uma curva impetuosa em direção ao segundo andar. Coloquei os pés no primeiro degrau, o policial me impediu. “Não pode subir não, moça. Só aqui em baixo”. Retraída, retrocedi à expectativa de entrar na grande sala de cinema. Entrei (amos).

Que gigante, pensei. Senti-me pequena e infantil diante de tudo aquilo. O espaço seria equivalente ao que hoje vemos em grandes teatros da cidade com um modelo anfiteatral de disposição de poltronas. Mas as poltronas não estavam mais lá, apenas os degraus vazios e cobertos de muito pó de cimento. À frente e ao centro da platéia, o palco. A tela de cinema era posicionada ali, por toda a extensão de largura e altura do tal palco. Mais do que o filme, as pessoas assistiam ali ao espetáculo que é a apresentação de uma arte, mesmo que sétima.

Toda enormidade do lugar e de sua história me levaram direto para a imaginação de qual poderia ser o filme exibido no dia, enxerguei as milhares de pessoas adentrando o espaço.

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Vi de pertinho a premiação dos escolhidos melhores no Festival Internacional de Cinema do Brasil. Vi Oscarito rindo na tela, Dercy me cutucando na platéia e Grande Otelo andando de mancinho.

O que acontecerá agora? O Cine Marrocos mais do que parte da história da cidade, é parte de uma época, é parte do cinema. O cinema nacional merece essa herança viva, em funcionamento, exibindo as centenas de filmes nacionais que são produzidos por produtores independentes e que não têm espaço nas salas de cinema de grande rede. O cinema nacional merece a Cinelândia Paulistana, e a Cinelândia merece ter o cinema de volta. Um circuito alternativo em um lugar tão clássico. Precisamos resgatar os espaços de cinema da cidade para que o cinema nacional de hoje não precise ser melancolicamente resgatado amanhã. #São Paulo #cinemarrocos