A crise de abastecimento de água na cidade de São Paulo é gravíssima, por mais que se finja ignorar.

A crise também se converteu em uma guerra de propaganda. Para evitar um racionamento que poderia ter colocado em risco a reeleição do governador, a decisão foi arrancar até a última gota de água das represas, literalmente. Isso fez com que o problema fosse além da crise hídrica, convertendo-se também em um desastre ambiental, com perda de fauna e flora.

A publicidade oficial, com o amparo de amplos setores da imprensa, procura construir um discurso que afasta as responsabilidades pela crise. Esse discurso, resumidamente, diz que:

a) A culpa é de São Pedro;

b) A outra parte da culpa é do cidadão que não economiza água;

c) A SABESP e o governo estadual estão fazendo sua parte e não têm culpa nenhuma na crise.

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Examinemos cada um desses argumentos:

A culpa é de São Pedro

Jogar a culpa em São Pedro é uma injustiça com o santo e um desrespeito à meteorologia e à estatística. A propaganda oficial insiste que essa é a maior seca em mais de 80 anos. Mas não é nenhuma surpresa. Secas assim acontecem periodicamente. O quadro de mudança climática experimentado pelo planeta tende a agravar o risco de ocorrência de fenômenos climáticos extremos. Portanto, ainda que não se possa predizer quando ocorrerá uma grande seca, é necessário preparar-se para sua ocorrência, dado que é uma possibilidade concreta.

A culpa também é de vocês

Jogar a culpa nos cidadãos é uma saída engenhosa, mas pouco sustentável. Para evitar o desgaste do racionamento, passou-se a combinar a propaganda pela economia com incentivos financeiros para redução do consumo.

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Ou seja, quando faltar água, a culpa será dos cidadãos que não economizaram o bastante. Esse argumento oculta as reais causas e nega o direito dos cidadãos à água, no fim das contas.

A SABESP e o governo fizeram tudo certo

A força da campanha de propaganda é muito grande. Ainda hoje, lia nessa mesma Blasting News uma matéria postada por um colaborador que caía - involuntariamente, por certo- nas armadilhas da propaganda. A matéria referia-se às "ações emergenciais, que a empresa responsável pelo abastecimento de água está administrando muito bem", e reproduzia o discurso oficial, isentando os responsáveis pela crise hídrica.

Observe-se que a matéria evita citar o nome da SABESP, e diz que as ações emergenciais vão muito bem, mas não as indica. De que adiantam essas eventuais ações, seja lá quais forem, se o grande erro foi cometido antes, e elas não o corrigiram?

A verdade é que não houve preparação. A crise hídrica expõe a deficiência de planejamento e a imprevidência dos responsáveis.

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Muitos criticam a distribuição de dividendos aos acionistas, por tirar recursos que seriam usados para investimento.

Quando, em 2004, o DAEE - Departamento de Águas e Esgotos - renovou a permissão para a SABESP retirar água dos rios que alimentam o Sistema Cantareira, determinou que a empresa fizesse um plano de contingência para situações de crise e um conjunto de ações preventivas. Desde então, muito pouco foi feito, e o assunto foi sendo rolado adiante.

Mas o discurso que a propaganda oficial e a grande imprensa procuram vender é o de que tudo foi feito corretamente e que caiu sobre São Paulo uma fatalidade. E colocam sua enorme máquina para convencer-nos de que a culpa é de um santo e das próprias vítimas. #Mídia