Existe um filme, cujo nome nem consigo me lembrar, que já assisti diversas vezes. Sei que não sou o único, pois tal filme gerou até mesmo algumas continuações. É um filme ruim, que não merecia a nossa atenção. A história do filme é básica: uma mimada competidora de patinação no gelo está sem parceiros - exatamente por ser mimada e intolerável. Como última solução o treinador convence um rude e desapontado atleta de hockey no gelo a tentar a sorte, uma vez que ele havia se contundido de forma que não poderia mais competir profissionalmente. Os dois começam o filme como rivais, brigando o tempo todo, até chegaram ao inevitável final, no qual se apaixonam e descobrem que aquela competição era a mais importante da vida deles e ambos haviam conseguido ser "vencedores".

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É uma espécie de "A megera domada" olímpica.

Realmente, algo um pouco além do tolerável e não consigo dizer por qual motivo, acabei assistindo tal filme novamente. Talvez algo a ver com a dualidade óbvia e complementar do casal ou do clima competitivo, ainda assim construtivo, da dupla. De qualquer forma, não importa. Certos prazeres que usufruímos são originados das tolices da vida.

Costumamos pensar que essas tolices nos tornam infantis ou imaturos. Mas, como dizia Oscar Wilde, apenas crianças tentam ser adultos. Na nossa vida, mesmo a do mais sublime gênio, existe aquele momento para o banal. Beethoven certamente já assoviou quando andava pela rua e até Da Vinci deve ter feito algum rabisco com palitinhos, para representar alguém ou uma cena.

Isso por que prazer está mais relacionado com a nossa memória do que com a qualidade do que fazemos.

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Quantos não descobrem que alguma música, horrível, horrorosa da adolescência, não traz sorrisos que desaparecem quando o implacável crítico da seriedade e maturidade que vive no nosso subconsciente, é revivido pela nossa própria tolice refletida em alguma superfície cristalina?

Se não pararmos para pensar, descobrimos que o prazer não demanda explicações, nem complexidades. Uma flor, daquelas mais simples que encontramos pelos canteiros das ruas, podem funcionar tão bem quanto a mais rara rosa. O prazer é uma exclusividade de cada um, é ele que filtra aquela beleza que o ditado popular alojar no olho do observador.

Não existe vergonha em admirar a mediocridade - vergonha é não ter nenhuma mediocridade na vida. Jamais creia naquela pessoa que afirma conhecer e somente se emocionar com as manifestações de mais alto grau artístico. Seja um bobo que vai rir das piadas do Pernalonga ou imitar o som dos sabres de luz dos Jedis da saga Guerra nas Estrelas. A pessoa que não aceitar essas tolices não poderá jamais reconhecer o valor da arte - pois o erro dela é similar ao erro daqueles que procuram atribuir igual valor estético dos grandes clássicos para obras medíocres: ambos confundem a experiência pessoal como um divisor de águas para toda humanidade.

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Tudo que podemos fazer é observar e admirarmos as poucas certezas que encontramos. #Cinema #Opinião