Depois de acordar, um pulo da cama, e direto para a higiene, engolir uma rápida refeição de desjejum, um conturbado e também rápido interagir com a #Família e todos estão prontos para mais um dia de uma existência que, muitas vezes, nos faz nos perguntar: "pra quê tudo isso?" Queremos trabalhar para ganhar dinheiro e, assim, termos condições de sustentar nossas famílias, dando-lhes tudo de bom e do melhor ao nosso alcance e, claro, satisfazermos nossos desejos, e mostrarmos a todos que funcionamos bem nessa sociedade louca que está pouco se importando para nós.

Passamos tanto tempo longe de quem nós amamos (ou achamos que amamos) que quando podemos estar ao lado deles, não sabemos como lidar.

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Queremos controlar tudo e todos, como fazemos no nosso trabalho. Atividades e horários são preestabelecidos, objetivos a serem alcançados, tempos livres são cuidadosamente organizados com ações para que nada fique sobrando. Em suma, queremos que nossa família seja uma empresa, onde não existe tempo improdutivo. Estamos vivendo uma época em que tudo é medido em termos de produção: quantas páginas eu li; quantas informações apreendi; quantas contas eu paguei; quantas respostas eu dei aos tantos emails, SMSs, ou mensagens que recebi através de minhas tantas contas nas inúmeras redes sociais que participo...

Tem gente que só se comunica com os amigos através de aplicativos. Até aí, quase tudo normal, pois amigos vivem distantes, em outras casas, outros bairros, outras empresas, outras cidades.

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Mas, quanto a nossa própria família? Por que somente através de mensagens de um app qualquer é que consigo entrar em contato com meus filhos, meu marido, minha esposa, meus pais? Pudessem ter um aparelhozinho à mão, também faríamos isso com nossos cães e gatos.

Onde erramos para estarmos, hoje, nesse caminho que nos leva ao nada e, certamente, nos deixará sozinhos, caso não haja sinal para uma transmissão? Em que ponto do nosso passado recente escolhemos seguir uma direção que nos afastou da possibilidade de interagirmos com nossos semelhantes?

Se essas perguntas são intrigantes e nos machucam quando a fazemos, piores são as perguntas que podemos fazer em relação ao nosso futuro, ao caminharmos ainda mais para a frente. Já imaginou a que ponto as relações humanas estarão desintegradas daqui a 10 ou 20 anos? Como será o pensamento e o comportamento dessa geração que já ganha seu primeiro aparelho para brincar ainda no berço, sem saber sequer dizer "papá" ou "mamã"?

É de se prever que maus dias estão por chegar.

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Há algumas décadas os japoneses lançaram um brinquedo que prometia substituir o animal doméstico. Lembram-se do "tamagochi"? Sintoma da necessidade de compartilhar afeto. Mas daquela forma era doentio, afinal era apenas uma máquina. Hoje vemos, com pesar, que o afeto virou peça de museu junto com as máquinas de datilografia, os telefones com disco e as televisões em preto e branco (elas já existiram, de verdade).

É preciso que retornemos para o caminho original que seguíamos. É preciso que reencontremos nossos amigos e familiares para que possamos olhar seus rostos de verdade, e não um selfie postado numa rede qualquer. É preciso que digamos que gostamos deles, e que ouçamos isso também. Só compartilhar ou curtir não é o bastante.