Confesso que eu não queria escrever sobre essas coisas, mas há certos abusos que não me deixam sossegado. Site de loja anuncia produtos em promoção e põe em destaque um CD à venda por míseros R$ 14,98, com propalados 80% de desconto em seu valor real de, pasmem, R$ 74,90. A única razão alegada para esse valor exorbitante é que o produto é importado. Caramba! Mais de setenta reais por um CD? Com quantos bestas se faz uma população de um país, a ponto de acreditar que o valor pedido na oferta, (quinze reais) não é o verdadeiro preço do produto com direito a boa margem de lucro?

Detalhe não menos importante, é que o disco foi lançado originalmente em 1993.

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Ou seja, há apenas­ 21 anos. Por favor, não nos insultem dessa maneira. Compraremos lixo de qualquer forma, a qualquer preço, mas não façam nos sentir como idiotas.

Acredito que o advento da Internet e da globalização favoreceu tanto o consumismo quanto a enganação, apesar da possibilidade que temos de fugir das armadilhas. Cada oferta é uma enganosa tentação de que estaremos nos dando bem em adquirir o produto. Curioso, é que, parece que perdemos o acesso aos verdadeiros valores das coisas. Ficamos sentados na frente de uma tela que muda a cada clique nosso. Somos seduzidos e ficamos à mercê de insinuosas ofertas à nossa vaidade e ao nosso desejo de sentir um pouco de poder. Tudo em nome do dinheiro, esse deus poderoso e impiedoso, que não se faz de rogado com nenhuma prece, e a todos impõe suas necessidades, mesmo que isso custe os olhos e o sangue dos outros.

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Como disse linhas acima, perdemos o acesso aos valores das coisas, porque perdemos o acesso às coisas. Estamos vivendo cada vez mais em um mundo que não existe. Fazemos o nosso mundo à nossa moda, e não sabemos - nem queremos saber - como nosso vizinho faz o dele. Pouco nos importa isso. O estranho é que, se antes possuíamos bens para nos exibir ao nosso próximo, e hoje não temos mais esse próximo, significa que estamos possuindo agora, somente pelo pervertido prazer de dizer para nós mesmos que temos, achando que somos, assim, melhores que quem? Que diferença faz ter somente para dizer para si mesmo que se tem?

Distanciamo-nos de nós mesmos quando nos afastamos das pessoas que convivem conosco na mesma rua, no mesmo bairro, ou no trabalho. Até de nossos familiares nos mantemos afastados. Talvez em breve percebamos que gente, até podemos comprar, mas vínculos afetivos, não. E, sem dúvida, é disso que precisamos. Sabe como conseguiremos estabelecer esses vínculos? Desligando o computador, saindo às ruas, indo aos mercados - e, eles ainda existem - interagindo com as pessoas, perguntando os preços das coisas, pechinchando, e confirmando qual a nossa real necessidade: é comprar alguma coisa, ou simplesmente conversar, trocar um "bom dia", "até logo", ou dar um abraço em alguém?

Se não vivermos como fazíamos antes de sermos globalizados, ficaremos condenados a não vivermos mais.

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Seremos apenas um consumidor virtual logado e pronto a teclar os números de nosso cartão de crédito. Nada contra a globalização, mas contra a forma vegetativa que escolhemos levar nossa existência. Comprando o que não precisamos por preços fantasiosos, estipulados por manipuladores que testam os valores. Se der certo, entra muito dinheiro com a venda do produto, se der errado, faz-se outra promoção noutro dia. E assim vamos todos. Eles tentando nos seduzir e captar nossos recursos, e nós tentando nos convencer que estamos fazendo o melhor negócio do mundo. #Negócios