Quanto tempo um autor merece ser estudado é um questionamento que me ocorre de vez em quando, principalmente por ser estudante de Letras e ver muitos escritores clássicos sendo dissecados e muitos contemporâneos sendo deixados de lado. Há obras literárias que são atemporais, não tenho dúvida, Machado de Assis carrega essa característica em muito de seus trabalhos, mas até onde adianta continuarmos nos perguntando coisas que nasceram para não ter respostas?

Diga você, Capitu traiu Bentinho em Dom Casmurro?

Teses e mais teses sendo feitas aos longos dos anos para buscar um ponto que confirme ou negue que Capitu cometeu ou não o adultério, mas afinal, essa pergunta tem resposta? Adianta continuarmos nos perguntando e perguntando, revisando e relendo a mesma obra para tentar buscar algo o que o autor não quis nos dizer?

O benefício da dúvida está praticamente morto nesse caso.

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Parece que não aguentamos colocar a cabeça no travesseiro e aproveitar o gostinho que a dúvida tem. Precisamos de respostas, cada vez mais. Respostas que não existem. Se por algum acaso você acha que pode descobrir se houve ou não adultério, os livros do Machado de Assis já estão liberados para domínio público. Fica meu desejo de boa sorte.

A academia insiste nos seus estudos machadianos, entrando em assuntos cada vez mais profundos (e rasos) como estudar a moda segundo a obra de Machado de Assis. Enquanto muitos escritores contemporâneos não ganham espaço. A maioria dos meus professores argumenta que "se você estudar os clássicos vai ver que os contemporâneos nem são tão bons assim", pois que não sejam então, por que não os estudamos e apontamos onde eles repetem os clássicos e os inovam? Não adianta continuar revirando caixão com o defunto podre dentro.

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Temos que aproveitar o que já foi feito e seguir adiante, vamos usar Machado de Assis para estudar os novos e não usar Machado de Assis para estudar Machado de Assis.

Infelizmente, esse tesão pelos clássicos não é só coisa de academia. Comprei esses dias o livro do Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego, na capa já havia os dizeres de um jornal francês: "um kafka português". E isso não é um caso isolado, livros e mais livros de autores contemporâneos classificados como escritores clássicos repaginados. Ser comparado a um escritor clássico é de fato uma honra, mas a maneira como os jornais e revistas classificam os contemporâneos, eles mais parecem releituras, parece que o escritor não tem nada de novo, apenas tomou novas palavras para escrever o que já foi dito.

Se continuarmos com essa tara nos clássicos, é só esperarmos o Papa Francisco vir para o Brasil, tenho certeza que vão perguntar se ele não está a fim de beatificar Machado de Assis.

Santo Machado de Assis, o padroeiro dos defuntos. #Literatura #Opinião