A divulgação das notas do ENEM 2014 expôs uma ferida grave que teimamos em não querer curar: a falta de qualidade em nosso ensino. Em matéria de alguns dias, discorri sobre o mérito do sistema de seleção usado que permite democratização do acesso ao ensino público, porém a forma não está sendo acompanhada pelo conteúdo, revelado agora, de péssima qualidade. Há muito tempo o ensino no Brasil está sendo mascarado, principalmente em forma de números.

Os números não mentem

Há mais gente estudando, há mais escolas, há mais verba, há mais professores, há mais capacitações, há mais intercâmbio... E há muito mais números que mostram que a "coisa tá indo".

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Entretanto, tudo isso se mostra uma farsa diante da vergonha nacional apresentada, também em números, pelo ENEM.

De mais de seis milhões de candidatos, apenas 20% conseguiram um nota acima de 6,0 na redação. Isso significa que oito em cada dez brasileiros que pretendem ir à uma universidade não têm competência na sua própria língua-mãe, e não sabem desenvolver um texto com qualidade. Para piorar o quadro, quase 10% conseguiram a proeza de tirar nota ZERO nessa prova escrita. Mais de meio milhão de pessoas.

Houve quem se levantasse em defesa desses coitados, tentando explicar o inexplicável, alegando que o tema proposto não foi fácil. Nem era pra ser. A prova é para selecionar mesmo. Mas questionemos diferente: Se uma pessoa não está conectada com sua sociedade e sua realidade, não tem ideias (nem contra nem a favor) sobre a publicidade, #Educação infantil, e como, e se, as pessoas são afetadas pela publicidade, está querendo entrar numa universidade para fazer o quê?

A resposta é mais simples do que podemos imaginar: Conseguir um diploma.

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É incrível, mas as pessoas hoje em dia não se interessam mais por conhecimento. Elas querem apenas um documento que as habilite legalmente a exercer uma atividade ou que só melhore seu salário. Como uma fotografia postada nas redes sociais, a pessoa usa seu diploma para dizer: "olha o que eu tenho".

Tudo isso acontece não só no nível superior, mas em todos os existentes. Abaixo e acima. Se não fosse assim, os resultados seriam diferentes. A proliferação de escolas de todo tipo, em todo lugar e por todos os preços cria a falsa impressão que o povo tem mais acesso à educação. Falácias sociais. Há empreendimentos particulares que abrem com o intuito de receber, ao fim de cada mês, a parcela da mensalidade, pouco se importando com a atividade pedagógica de fato.

As escolas públicas, ao contrário, oferecem ensino gratuito. Mas nem por isso sofrem de falta de verba, pois são dotadas de recursos (os números não mentem) para fornecer ensino de qualidade, em estrutura de qualidade, aos seus alunos, porém o que se vê é uma sequência de desvios e sonegações do dinheiro destinado.

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Isso faz com que falte até papel ofício nas secretarias das escolas e giz nas salas de aula.

A verba ficou nos bolsos de pessoas bandidas no meio do caminho. A conta é paga pela sociedade que perde o dinheiro, não recebe o que pretendia, ou seja, alunos capacitados, e fica à deriva em um mundo cada vez mais competitivo e carente de quem saiba fazer mais que escrever seu próprio nome.

Achamos normal escolas se aproveitarem das mensalidades de pais e não ensinarem aos filhos, mas que no final terão seus certificados. Achamos normal as escolas públicas não terem condições de ensinar nada, não terem estrutura nem professor. Acho que somos anormais.