Com o objetivo de conscientizar os jovens de que o uso de bebida alcoólica não é tão saudável quanto as publicidades apresentam em suas peças, foi criada uma campanha intitulada #BebeuPerdeu. O título já remete às situações de violência urbana registradas em abordagens de marginais que usam o bordão "perdeu" na hora de "explicar" o assalto que estão cometendo.

A intenção da campanha, pelo que tudo indica, já começou errada aí, pois vincula o ato de beber com a violência. Esta relação não é biunívoca. Para quem não lembra bem das aulas de matemática da adolescência, biunívoca é a relação entre dois conjuntos de elementos, quando um elemento A tem relação com o B, e esse B tem com o elemento A.

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Nem toda violência tem origem na bebida, nem toda beberagem evoca violência. Às vezes acontece, mas isso não é regra, além do que beber é legal e lícito, enquanto cometer violência, não.

A violência que o Ministério pretende coibir é a violência doméstica e a contra a mulher, foco da campanha, porém a escolha da forma para a comunicação foi o uso de bullying em que os textos são bem claros: "Bebeu demais e esqueceu o que fez? Seus amigos vão te lembrar por muito tempo", ou "Algumas cervejas. Horas jogado no chão. Vários whatsapps para a ex." Não tenham dúvidas que a intenção é sim, estimular os amigos a caçoarem daquele(a) que exagerou na dose, fazendo-o(a) sentir-se culpado(a) pelas conseqüências advindas do estado de embriaguez.

Em poucas horas de veiculação, a campanha foi alvo de centenas de críticas dos internautas.

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Tamanha reação fez o Ministério voltar atrás e retirar a campanha do ar. No seu lugar, um prosaico pedido de desculpas:

"A campanha #BebeuPerdeu é muito mais do que isso. Nós nos equivocamos com a peça. Ela tem o objetivo de conscientizar jovens de até 24 anos sobre os malefícios do álcool. Atuamos em políticas públicas em conjunto com a Secretaria de Políticas para a Mulher (SPM) contra a violência doméstica, o feminicídio e outras formas de violência contra a mulher. Pedimos desculpas pelo mal entendido e ao mesmo tempo contamos com a colaboração de todos na campanha. Abraços."

Em tempos de mídias sociais com força como ocorre atualmente, as pessoas são mais que meras espectadoras dos acontecimentos. Sabedores da força das redes sociais, os arautos do #Governo tentam chegar junto do público e transmitir suas idéias de forma mais informal e descolada, porém "viajam na maionese" ao achar que brincadeiras feitas em mesa de refeitório ou de escritório, com três ou quatro colegas, vão chegar ao grande público causando o mesmo efeito.

Não são poucos os exemplos de publicidades mal feitas e que causam efeito inverso ao objetivado. E, infelizmente, esse não será o último caso.

O pedido de desculpas foi publicado, mas o título da campanha continua o mesmo, comprovando que os autores perceberam que não agradaram, mas não sabem, ainda, o porquê.