Nas últimas semanas, uma campanha contra o aborto foi iniciada nas redes sociais, em que mulheres gestantes aparecem mostrando a barriga e escrevem "Diga não ao aborto". Mas algumas improcedências existem nesta campanha, uma vez que, no Brasil, já existe uma lei que regulamenta a legalização ou não do aborto. Aliás, ela não é uma norma recente, pois já vigora há quase 80 anos no país.

Contudo, o desconhecimento dos fatos faz com que milhares de mulheres passem a apoiar a questão, tratando apenas da generalização do aborto como um acontecimento sem fundamento, em casos de interrupção por vaidade ou descuido na hora da relação sexual.

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Nestes casos, com toda certeza, deve haver a proibição, mas muitos outros pontos entram em questão.

Na lei que regulamenta o aborto, dois casos são permitidos às mulheres: aquele em que se faz necessário ou o chamado aborto terapêutico, em que a mulher corre o risco de vida e é necessário a interrupção da gestação; e o chamado aborto humanitário ou sentimental, resultante de violência e estupro. Contudo, ambas as opções apenas podem ser realizadas sob consentimento médico e praticada por ele. Diante disso, todo e qualquer aborto que não se enquadre nas opções acima não são considerados crimes e devem ser penalizados, seja na sua forma administrativa, civil ou penal.

Não existe na lei qualquer menção quanto ao poder ou não abortar. Existem as penalidades, e estas se fazem cumprir pela prática de tais condutas.

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Vale lembrar que no Código Penal não se lê "Proibido matar", contudo existe o artigo em que dá as devidas penalidades no caso de alguém matar, estabelecendo uma reclusão de 6 a 20 anos.

As informações expostas na mídia contradizem o que os fatos realmente significam. Numa sociedade que possui deficiências morais e de educação formal, é necessário rever os pré-conceitos que passamos a ter quanto a certas circunstâncias, como é o caso do aborto. Vivemos num país em que a falta de estrutura, de informação e de apoio ainda perduram, e isso são fatores-chaves para que realmente o aborto tenha efeitos perniciosos.

No Brasil, um outro caso de interrupção da gestação é quando o feto apresenta malformação e/ou síndromes genéticas, já possibilitando que o médico possa realizar o aborto consentido quando o feto é anencéfalo. Contudo, existem muitas outras síndromes e malformações em que os bebês nascem portadores, e que sofrem por toda a vida. Muito se fala em aplicar o direito sempre direcionando-o para o lado cultural, como uma ciência exata, mas ele não o é; ele passou a ter as feições da cultura a medida que passou a ser exercido e aplicado.

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Países europeus e Estados Unidos já ultrapassaram as barreiras culturais, e exigem que a gestação seja obrigatoriamente interrompida nos casos em que fetos apresentem síndromes e malformação. Talvez o Brasil não esteja preparado para incluir novas opções de aborto em lei.

A única diferença que existe em interromper uma gestão em uma, duas, três semanas ou até mesmo horas ou dias de vida de um feto é o fato da materialização de um ser. Fora isso, em ambas as circunstâncias nos iludimos com a falsa sensação de que, quando o feto não está sendo materializado, não está sendo cometido um crime contra a vida, ou seja, já se está matando alguém.

Somos hipócritas e egoístas quando vendamos nossos olhos e opinamos sobre algo que não nos atinge, e essa é a única verdade diante das circunstâncias que rondam a o fato de"poder ou não abortar". #Opinião